"Eu vou fazer mais UPAs", dizia o candidato tucano a cada nova eleição. A gente ali, esperando que eles berrassem que foi FHC quem criou a estabilização e as bolsas que Lara mentia serem suas, que o petismo queria enfiar um kit gay na cabeça do seu filho na escola e era sócio do Foro de São Paulo. Mas não tinha jeito, eles se recusavam a atacar como eram atacados e insistiam em sua "campanha propositiva".
Aécio saiu um pouquinho do figurino, atacou e quase venceu em 2014. Imaginava-se que os tucanos teriam aprendido a lição e fariam de tudo para não permitir o retorno dos adversários após o impeachment da Anta, mas em 2018 eles não souberam como lidar com o surgimento de um candidato de cujo antipetismo ninguém podia duvidar.
Sim, em política é normal você se definir pelo adversário. "Propostas" são secundárias, mesmo que queira seu candidato não conseguirá realizar tudo o que promete, mais importante é retirar o que lhe parece pior em termos de visão econômica, honestidade, respeito à democracia, "costumes" e outras linhas gerais.
Bolsonaro sempre foi autenticamente antipetista, construiu essa imagem mediante discursos e ações durante décadas. Alckmin poderia tê-lo neutralizado em 2018 se seguisse a linha de Aécio e tratasse o azarão com condescendência, como um parceiro de antipetismo que, no entanto, não tinha sua experiência em governar.
Ao invés disso ele esqueceu de Haddad e passou a atacar Bolsonaro como os petistas faziam, acusando-o de racista, assassino de gays etc. Acabou perdendo o apoio dos antipetistas e com um número ridículo de votos. Doria (Bolsodoria) ainda fingiu apoiar o antipetismo para ser eleito, mas acabou com o tucanismo de vez ao trair seu eleitor logo depois.
Esse pequeno histórico visa responder à Gazeta do Povo de hoje, que se pergunta por que os outros candidatos (ditos) de direita não conseguem empolgar o eleitor de seu alegado campo.
Um argumento utilizado é que eles são pouco conhecidos fora de seus nichos - os estados que governaram, no caso de Zema e Caiado; o público juvenil das redes no do Cogumelo. Mas o principal problema é que grande parte do eleitorado à direita é fiel à imagem de combate ao adversário que Jair Messias construiu e Flávio herda automaticamente.
As próprias perseguições, as prisões, a censura e as demais arbitrariedades do regime pt-stf confirmam esse quadro. Também aqui, as posições se definem pelo combate ao adversário; ao não atacarem os ex-governadores e até tentarem promover o outro, o luloalexandrismo e sua imprensa mostram que não os consideram inimigos de seu projeto de poder.
Isso não vai mudar nessa eleição. Poderá mudar na próxima? Creio que é possível, mas apenas, ao contrário do que eles pensam, se Flávio vencer agora.
O raciocínio é o mesmo de 2022. Se Bolsonaro tivesse vencido seu líder corrupto, o PT teria se desestruturado e deixaria de ser o grande adversário. Então, sem a ameaça do monstro, o eleitor de direita passaria a comparar o candidato bolsonarista com as outras opções ditas do seu campo e poderia eventualmente trocá-lo.
Se o PT vencer este ano, o eleitor realmente antipetista voltará a votar no candidato mais antipetista (bolsonarista) em 2030. E tentar sufocar o bolsonarismo retirando seus candidatos só poderá ser feito se a ditadura se assumir totalmente como tal - caso contrário o efeito será inverso, irritando e fidelizando uma ampla faixa do eleitorado como acontece hoje.
Se Flávio vencer, abre-se o espaço para pensar em outras alternativas em 2030. Mas acho que o eleitor tem memória (ou acesso às redes que a têm) e ainda não haverá chance para quem fizer o jogo do PT, apoiando-o por ação ou omissão no segundo turno do próximo outubro.

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