As datas quase coincidem. No final de julho de 1415, à frente de uma frota de mais de 200 embarcações, o Mestre de Avis, D. João I, partiu de Lisboa com 7.500 cavaleiros, 500 besteiros e 21.000 soldados a pé. Seu destino era Ceuta, disputado ponto desde a época de Cartago, por onde então passavam muito ouro africano e especiarias do Oriente.
Foi o início da expansão ultramarina de Portugal. A cidade foi tomada em 22 de agosto e os filhos de D. João foram armados cavaleiros na mesquita transformada em catedral. Um deles era D. Henrique, que se dedicou a estimular as navegações. Numa delas Gil Eanes conseguiu ultrapassar o Bojador ao seguir para oeste até desviar das correntes rumo norte da costa africana. Outros acabaram indo mais para o oeste e...
Ao ser descoberto, o Brasil integrou-se a um reino que já incluía Ceuta. E nós continuamos a fazer parte do mesmo "país" até 1640, quando, com o fim da união entre as duas nações ibéricas iniciada em 1580, nosso cantinho voltou para o domínio de Portugal e Ceuta ficou com a Espanha.
Assim, não se espante se você achou a invasão daquele povo moreno à cidade espanhola uma coisa familiar, meio parecida com um arrastão em praia carioca ou uma divisão de bolo em cidade nordestina. É uma espécie de DNA histórico, algo nos liga àquilo como os chimpanzés à espécie humana.
Poderia ter sido diferente? Sim, sem dúvida, mas sempre que parece que nós vamos engrenar outra marcha acabamos engatando a ré. O Império era arrumadinho, os militares deram o golpe e inventaram a República; FHC deu uma ajeitada no país, mas foi sucedido pelo lulopetismo; Bolsonaro renovou a esperança, veio a pandemia e o retorno do nosso mais danoso vírus político.
Será que um dia romperemos esses ciclos? Ainda haverá tempo para uma recuperação e um novo destino? Não sei, lembremos que D. João I era filho de D. Pedro I, aquele da Inês de Castro. Desde aquela época o pessoal já diz: "Agora é tarde, Inês é morta."

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