"Por trás disso está o que os psicólogos chamam de raciocínio motivado. As pessoas sempre enxergam o mundo por meio das lentes de seus próprios desejos, ideias, valores e ideologias políticas. Tudo aquilo que não pode ser conciliado com suas convicções tende a ser desvalorizado."
Pinçado de um artigo da DW, esse trecho me lembrou a pergunta que muitos fazíamos quando algum "intelectual de esquerda" explicava que as pessoas viam o mundo de maneira distorcida, cada uma de acordo com a classe a que pertencia: Qual era a distorção particular da classe dos intelectuais de esquerda?
A resposta, embutida na argumentação, era "nenhuma". Eles eram os sábios classificadores que estavam acima das classificações, os portadores da verdade absoluta, os únicos com capacidade de entender todo o conjunto e definir os caminhos que os inferiores, presos aos limites de suas classes, deveriam seguir.
Não mudou muito. O título do artigo em questão é "Calor recorde não freia ceticismo climático na Alemanha" e seu texto informa que "a desconfiança em relação às mudanças climáticas se tornou fenômeno de massa na Alemanha, com postura sendo associada a posições de direita, desconfiança nas instituições e insatisfação com a democracia".
A autora não diz, nem precisa, que tudo isso lhe parece anormal. O normal seria resumir "mudanças climáticas causadas pelo homem" a "mudanças climáticas", concordar que a recente onda de calor não pode ter outra causa, ter posições de esquerda, confiar cegamente nas pessoas que dirigem as instituições e chamar esse combo de democracia.
Na verdade é o contrário. Quem está insatisfeita com a democracia é a esquerda que não aceita a contestação ao seu discurso e a possibilidade de manipulação das instituições, todos sabem que mudanças climáticas muito mais drásticas não foram causadas pelo homem e não é uma onda de calor no verão que vai provar o contrário.
E o principal problema é o que está escondido no "raciocínio motivado" do militante de esquerda. Ele quer estar ao lado (ou de preferência ser um) dos classificadores, usar a suposta responsabilidade humana por um iminente desastre climático para definir regras que toda a humanidade teria que seguir sem contestação.
Pessoas como a autora do artigo não admitem essa explicação porque, tal como os antigos intelectuais, se acostumaram a pensar que só os outros as têm e não percebem a sua própria distorção. Mas os integrantes das demais classes entendem cada vez melhor o que está em jogo e não estão dispostos a facilitar a vida dos autoritários.
Com homem ou sem ele, o clima sempre mudou. Se alguma região hoje valorizada se tornar inabitável por questões climáticas, veremos o que fazer na ocasião. Por enquanto, que venha o frio no inverno e o sol no verão.

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