domingo, 21 de junho de 2026

Rojo

Pensei em ver o jogo do Japão, o país do sol vermelho. Mas ainda era cedo para isso e, zapeando pelos canais, acabei pegando o início de um filme argentino chamado Vermelho Sol (Rojo), que se passa numa cidade do interior no ano em que os militares acabaram tomando o poder (1975).

Não deixa de ser um filme sobre ditadura militar, mas se você estiver meio desatento nem vai notar. Há o rádio falando sobre os valores em comum da sociedade argentina e americana, há um interventor nomeado para o governo provincial etc. Na última fala, um amigo diz ao advogado Cláudio que parece que vão dar o golpe.

Enquanto isso as pessoas vão levando suas vidas. Cláudio arruma uma discussão num típico restaurante de cidade pequena, o sujeito o ataca fora dali e atira em si mesmo, ele primeiro tenta salvá-lo, depois o abandona no deserto para morrer. Mas mesmo esse episódio diferente em nada afeta (nem afetará) sua vida normal. 

Depois ele participa, meio a contragosto, de um esquema que o amigo lhe propõe para tomar uma casa abandonada. De resto, exerce sua profissão normalmente. Sua esposa tem a parte dela, sua filha namora um cara que faz parte de uma turminha que acaba dando sumiço num de seus colegas de teatro.

Com esses e outros personagens bem construídos, o filme é muito bom. São cerca de 100 minutos de cinema de alta qualidade. Terminou com o primeiro tempo do jogo, que eu acabei deixando pra lá. 

Sem ambientes ou guarda-roupas grandiosos, com quase todas as cenas se passando em espaços fechados, imaginei que a produção não deveria ter sido muito cara. E foi barata mesmo: 500 mil dólares, quase vinte vezes menos que uma porcaria como Ainda Estou Aqui.

Por que os argentinos conseguem fazer um filme bom atrás do outro e os brasileiros não? Não é dinheiro, aqui tem mais. Até para falar de ditadura militar - monotema do cinema ruanístico - os hermanos conseguem ser muito melhores que os panfletos primários de nossos "cineastas".

Para terminar, dei uma olhada em algumas críticas brasileiras sobre o filme. Numa delas, o restaurante acanhado se transformou, não imagino como, num restaurante de classe média alta. Em todas, a questão não é a qualidade do enredo, mas o fato dele alertar para essa coisa terrível que é o fascismo e blá blá blá.

O mundo dos caras se resume ao combate ao mal encarnado, que é a ditadura militar. Fazem filmes sobre a única coisa que ocupa suas mentes doutrinadas.



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