Vinham os bucaneiros da Ortobom navegando felizes em suas acolchoadas embarcações quando foram abalroados pela frota da 3ª Turma do TST, que, gritando por unanimidade do alto da popa, os obrigou a pagar 300 mil dobrões pelas maldades cometidas contra a explorada população de Arapongas.
Seu crime foi "não apresentar uma explicação plausível" para a ausência de garotas na guarnição. Em 2022, quando houve a denúncia do MPT e o processo começou a correr, as 22 gerências e as duas subgerências da fábrica que emprega boa parte dos 6000 funcionários da empresa eram ocupadas por homens.
Aí você pode perguntar: em que lei está escrito que uma empresa privada precisa contratar um certo percentual de mulheres (ou travestis, ou anões albinos) para algum cargo? Em nenhuma, mas você sabe como é, nos selvagens mares alexandrinos vale a opinião do mais forte, esse negócio de lei é só "interpretar" alguma.
A empresa não se manifestou até agora, mas parece ter aprendido a lição. Fundada há 60 anos por três irmãos (três homens) e dirigida por seus descendentes (outros três homens!), ela decidiu "profissionalizar sua gestão", contratando, em 2025, uma CEO, uma mulher que certamente acabará com a odiosa discriminação que lá imperava.
Azar do Zé, do Antonio e do João, que começaram no chão de fábrica da empresa familiar e almejavam, após duas ou três décadas de dedicação, pegar a próxima gerência que vagasse. A chance de um homem ser escolhido para um cargo desses deve ser próxima de zero nos próximos anos.
A não ser que os donos da empresa decidam que é melhor seus descendentes viverem de aplicações financeiras e acabem por vendê-la para quem, sem vínculo algum com a cidade em que tudo começou, decida navegar por outros mares e pague mais 500 km de frete para instalá-la no vizinho Paraguai.
Até lá, quem precisa tomar cuidado é o ministro que chefiou a turma, Alberto Balazeiro, que, ao ler a sentença final contra a empresa que tanto prejudica o desenvolvimento da cidade, frisou que a população de Arapongas se divide quase meio a meio entre homens e mulheres.
Como o douto magistrado chegou a essa conclusão senão pelo ultrapassado critério do sexo atribuído ao nascer? Como ele sabe quantas pessoas se sentem de um sexo ou outro? Ou de um terceiro ou quarto? Até nas sentenças que procuram combatê-la, esconde-se a discriminação estrutural de gênero de nossa pervertida sociedade.
E a pergunta que não quer calar: quando vamos ter afinal coragem de encarar o drama de nossos anões albinos?

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