Mais uma vez, vamos democraticamente abrir espaço para transcrever, na íntegra e com poucos comentários, um artigo de quem não pensa exatamente como nós. Com vocês, as inquietações da bela de Berlim, a rainha malvada do humor involuntário, a sua, a minha, a nossa Nina Lemos.
Mulheres que socorrem mulheres
Fazia anos que não acontecia, mas quem tem síndrome do pânico sabe que ele, o ataque de pânico, sempre pode voltar, esse maldito. Dessa vez ele me pegou em plena rodoviária do Rio de Janeiro, minha velha conhecida Novo Rio. Fazia calor e comecei a ouvir a voz na minha cabeça falar: “vou ter um ataque de pânico. Vou ter um ataque de pânico.” Quem sofre deste mal sabe como funciona. Quando a voz na sua cabeça passa a repetir esse mantra, ele vem com tudo. Não tem mais como parar o negócio e você vai passar os momentos seguintes desesperada achando que vai ficar maluca e/ou morrer e que aquilo nunca mais vai passar. O pânico irrompe.
O que será pior, o ataque de pânico ou a voz dentro da cabeça que fica sacaneando a vítima de véspera?
Passei a dar passos hesitantes. Cruzar o corredor lotado e descer a escada para pegar meu ônibus parecia muito mais assustador do que mudar sozinha para Berlim com duas malas sem falar alemão, o que eu já fiz meio sem medo. Parei tremendo no meio do caminho pensando: “não vou conseguir, não vou conseguir”. Até que ouvi uma voz de mulher: “você está passando mal? Precisa de ajuda?” Disse que sim, que estava tendo uma crise de pânico pesada e essa pessoa incrível me pegou pelo braço, conversou comigo tentando me acalmar, e me levou até a plataforma do ônibus. Eu não teria conseguido fazer isso sozinha. Não teria conseguido sem ela. Eu estava tão mal que não guardei o nome dela. Mas vou ser grata para sempre.
Depois disso ,fiquei pensando na quantidade de vezes que em que fui socorrida por mulheres. E nesse mito do homem salvador. O tal príncipe que socorre a donzela em perigo é uma das maiores fake news de todos os tempos. Mulheres socorrem mulheres desde que o mundo é mundo. A ideia de um príncipe ou de um heroi que salva a mocinha não é só antiquada, como é tão irreal que chega a ser engraçada.
Você conhece alguma mulher que na hora em que as coisas ferraram geral foram salvas por um homem? Até deve ter, mas isso é o ponto do ponto fora da curva.
Outro lado: imagine o que pode acontecer se você, homem, agarrar o braço de uma desconhecida que está em pane mental. Como você vai explicar que estava tentando ajudá-la se, por exemplo, a doida começar a gritar? O risco é muito alto.
Eu tenho uma história que é tão bizarra que parece irreal. Uma vez sofri um assalto com arma junto com um amigo. E, tudo indica, aquele era um assalto planejado para acontecer com ele. Eu entrei por acaso. A gente estava no carro dele, entrando na garagem da casa dele, quando dois bandidos armados nos renderam. Cada um foi em uma porta, com arma em punho, mirando nossas cabeças. Eu levantei os braços me rendendo. E o que o nosso herói fez? Ele saiu correndo (de costas para a arma, vejam bem) e me deixou sozinha com dois assaltantes armados. Eu juro. Nessa hora, um deles encostou a arma na minha cabeça e falou a frase que nunca vou esquecer: “o cara fugiu. Vamos ter que matar ela.”
Os bandidos chegaram na janela, mas o cara conseguiu abrir a porta do carro e sair correndo na boa? Eles iriam matá-la no lugar dele? Bizarro mesmo, dá até a impressão que tudo foi armado pelo "amigo" para sacaneá-la. Será que não foram as vozes na cabeça que inventaram essa história?
No fim eu, e seja lá o que me protege, salvamos a minha vida. Fiquei calma. Pedi que não me matassem e estou aqui para contar história. Lembro desse amigo quando ouço as histórias de mulheres que são largadas sozinhas em montanhas. Conheço esse sentimento.
Outro momento de heroísmo de que me lembro. Minha melhor amiga é epiléptica e por isso aprendi a agir com calma diante de uma crise dessas. Uma vez ela e o então marido estavam hospedados na minha casa e ela teve uma crise. O que o .nosso herói fez para ajudar sua mocinha? Falou a frase: “você já está segura com a Nina, então vou encontrar a galera”. E foi para um bar frequentado por escritores machos encontrar com outros amigos homens e falar de literatura, jornada de herói e outros assuntos de “homem”.
Mas, Nina, se você mesma está dizendo que as mulheres cuidam melhor das outras... E é impressão ou todo mundo da sua turma tem algum probleminha na cuca?
Também já aconteceu comigo de ter um namorado que disse o seguinte quando eu contei que tinha síndrome de pânico. “Disso eu tenho medo”. Imagina uma pessoa ter medo de ataque de pânico. Já tive crises com as mais variadas amigas. Nenhuma delas ficou com medo. Nenhuma delas saiu correndo.
Injustiça, um sujeito que namora a Nina certamente tem muita coragem.
Não estou aqui para romantizar as coisas e falar que todas as mulheres salvam mulheres. Não é isso. Ano passado mesmo eu me decepcionei profundamente com duas mulheres que eu acreditava que eram minhas irmãs. Uma delas eu já socorri muitas vezes e, quando precisei, o socorro não veio. Foi horrível. Não ser socorrida por uma mulher que você sempre achou que te socorreria é uma das piores coisas da vida. Deve ser porque dos homens não espero socorro mesmo. Espero que saiam correndo e me deixem com uma arma na cabeça, ou que tenham boas intenções (das quais o inferno está cheio) mas não consigam ajudar porque “bloquearam”. Ou porque têm medo. Já nós, mulheres, não podemos nos dar ao luxo de fugir.
Socorra suas amigas.
Socorra desconhecidas passando mal na rua.
Tudo que nós tem é nós.
Humm, então as irmãs também pisam na bola? Quanto a esse negócio dos homens correrem de você podem existir outros motivos, sei lá. Converse com alguém sobre isso, as vozes na cabeça talvez consigam ajudar.

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