Pouco menos de 10 milhões de pessoas, população atual da cidade de São Paulo, era o que o Brasil inteiro tinha em seu primeiro censo nacional, realizado em 1872. Praticamente todos eram católicos, 82% eram analfabetos. E cerca de um milhão e meio (15%) ainda eram escravos.
Revelando a eficiência das leis de abolição gradual (da importação de escravos, dos sexagenários, do ventre livre e das abolições provinciais), uma quarta parte dos negros já era livre nessa época, pois eles compunham 20% de uma população que também tinha 4% de indígenas, 38% de brancos e 38% de pardos.
Confirmando essa impressão, apenas dezesseis anos depois, quando a princesa assinou a Lei Áurea, a população havia crescido significativamente e estava próxima de 14 milhões. Mas o total de escravos havia caído pela metade em números absolutos (700 mil) e mais ainda em termos percentuais (5%).
Mitos destruídos
Complementando o assunto do último domingo, esse números corroboram a opinião do Antonio Risério. Segundo ele, a ideia de que os mestiços são resultado dos estupros de escravas é apenas um mito. E a de que a Abolição causou uma catástrofe social ao jogar os negros repentinamente nas ruas é outro.
Quanto ao primeiro, a elite era pequena, ainda que transassem com suas escravas 24 horas por dia os senhores de engenho e seus equivalentes não gerariam tantos filhos. A maior parte dos nossos mestiços é fruto de uniões voluntárias, casamentos normais entre pessoas, em geral pobres, de etnias diferentes.
Quanto ao segundo, uns dois milhões de negros já estavam livres em 1888 e levavam a vida de algum modo. A maioria deles era pobre, mas a de brancos e pardos também. E entre os 700 mil libertados muitos já faziam seus corres ou passaram a ser empregados dos ex-donos. O que sobra não é suficiente para gerar um pandemônio.
A Lei Áurea é de 1871
Essa eu aprendi essa semana - quem diz que o Youtube não é cultura? Inicialmente, Lei Áurea era o cognome da Lei do Ventre Livre, de 1871. Como a Abolição a superou, os intelectuais e a imprensa da época combinaram de transferir-lhe o título - um caso claro de manipulação midiática, esse sim um mal do qual nunca nos livramos.
E a Lei do Ventre Livre? Ela acabou sendo ultrapassada na corrida da abolição, mas não é por isso que se deveria esquecê-la. Quem perde a medalha de ouro fica com a de prata, poderiam tê-la chamado de Lei Argêntea. Talvez tenham pensado nisso, mas argêntea é parecido demais com argentina, não cairia bem.
Ontem e hoje
É interessante como a situação do primeiro censo se altera em 150 anos. No censo mais recente, de 2022, brancos e pardos continuam a predominar e aumentam a sua participação, negros caem pela metade, índios puros quase desaparecem, e surgem os brasileiros de origem asiática.
Na verdade, os pretos puros também parecem destinados a desaparecer. Dá para entender porque os picaretas dos "movimentos negros" tentam juntar pretos com pardos (mesmo quando estes são mamelucos, mestiços de índios e brancos).


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