quinta-feira, 9 de abril de 2026

Pequena gente grande

Numa das últimas edições da Gazeta do Povo, Luciano Trigo reconheceu que podemos ter um problema de adultização, mas muito pior que ele é "o projeto de infantilização dos adultos, que parece estar sendo promovido de forma deliberada pelo Estado Brasileiro". Com algumas supressões e alterações, seu artigo está copiado abaixo. 

Eternas crianças

Uma criança depende materialmente dos pais e é por eles orientada, corrigida e disciplinada. Dela não se espera autonomia plena, mas obediência e submissão. Quando este modelo é replicado em escala nacional, surge o adulto infantilizado: alguém que prefere a segurança da tutela estatal à incerteza de assumir responsabilidades. Convertido em “filho eterno”, ele recebe mesada, obedece às regras impostas “para o seu bem” e aprende que qualquer problema deve ser resolvido pelo “pai” Estado, e não pelo seu esforço pessoal.

O custo social dessa dinâmica é alto. Aos poucos vai se consolidando uma cultura de acomodação, na qual empreender é visto como tolice, e o emprego formal, como armadilha. O risco é substituído pela proteção e o mérito tratado com desconfiança. A pobreza deixa de ser combatida com seriedade e passa a ser gerenciada para manter o eleitor cativo.

Constantemente lembrado de sua vulnerabilidade, o indivíduo passa a se ver mais como vítima das circunstâncias do que como agente de transformação. A responsabilidade pessoal dá lugar à reivindicação permanente por direitos. Em vez de “eu conquisto”, instala-se o “eu mereço”. Todos os fracassos são atribuídos ao “sistema”, aos “ricos” ou ao “mercado”. E esse processo avança em duas frentes: a dependência econômica e a tutelagem regulatória.

Mesada

A dependência econômica é o primeiro pilar. É claro que políticas sociais são necessárias em nosso país: o problema está na forma como elas são desenhadas, ampliadas e instrumentalizadas politicamente. Quase metade da população brasileira vive hoje em lares que recebem algum tipo de transferência direta do governo.

O que era para ser assistencialismo emergencial se tornou uma rede permanente de manutenção de lealdade política. O beneficiário aprende, ainda na escola – que estudantes já são pagos para frequentar –, que o Estado é o provedor supremo. A disposição para prosperar e enfrentar desafios perde força diante da garantia de um repasse mensal.

Durante a pandemia, aliás, milhões de pessoas que nunca tinham recebido nada do governo passaram a considerar o depósito mensal como um direito natural. Passada a pandemia, quando o auxílio terminou, a pressão por sua volta foi imediata – e eleitoralmente eficaz.

Isso pode, isso não pode

O segundo pilar é a tutelagem regulatória. Sob o pretexto de proteger, educar ou garantir o bem-estar das pessoas, o Estado multiplica normas, restrições e comandos que invadem todos os aspectos da vida privada. Não basta ao Estado prover: ele quer decidir o que cada um pode comer, dizer, consumir, pensar ou sentir.

O cidadão adulto é tratado como incapaz de gerir a própria vida. A linguagem é policiada, comportamentos banais são normatizados, e escolhas pessoais são reinterpretadas como questões de interesse público. Essa interferência constante cria uma massa de indivíduos economicamente vulneráveis e psicologicamente condicionados a aceitar, ou ao menos tolerar, decisões que antes seriam contestadas.

A Lei Felca exemplifica bem esse espírito intervencionista. Ela reforça a ideia de um Estado superpai que vigia, orienta e decide por todos. A liberdade de escolha, marca da maturidade, é gradualmente substituída pela proteção coercitiva. O indivíduo é desautorizado como sujeito moral, e o Estado assume o papel de tutor onipresente.

Essa infantilização fragiliza a democracia, deteriora o debate político e o transforma em uma briga de irmãos pela atenção do pai-Estado. Mas a democracia exige cidadãos capazes de tomar decisões informadas, avaliar riscos e assumir consequências – o que não acontece quando o eleitor é tratado como alguém que precisa ser guiado pela mão.

Hora de mudar 

Tão importante quanto impedir que crianças se tornem adultas precocemente é evitar que adultos permaneçam crianças para sempre. O Estado precisa deixar de atuar como pai. O povo precisa deixar de se comportar como filho. É hora de crescer.


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