sexta-feira, 6 de março de 2026

Ingenuidade até demais

"Fui abusada e não sabia o que estava acontecendo, só percebi anos depois." Você pensa que quem está falando era criança na época, mas a frase é de uma "vítima do Epstein" que tinha 21 anos quando o conheceu! Já tinha vítima de 15 que voltava todo dia para ser abusada de novo, mas essa bateu o recorde.

As notícias sobre esse caso evidenciam que o cara tinha um esquema de pressão psicológica e muitas das envolvidas eram menores de 18 anos. Mas por pior que ele fosse, até agora eu não vi nenhuma prova de que o Epstein abusava de crianças - 15 anos não é criança - ou uma "vítima" que alegasse ter sido estuprada.

O mesmo vale para o Andrew, que perdeu até o título de príncipe por participar das festas do amigo. Entre suas supostas vítimas, a mais jovem tinha 17 anos e se sabe disso porque ele a apresentava socialmente como sua namorada. Ele era bem mais velho, mas e daí? O Chaplin, o Caetano e tantos outros podem, por que ele não?

Minha teoria é que a imprensa adora criar de vez em quando um monstro a ser destruído só para mostrar poder. O Epstein se suicidou ou foi suicidado? Pronto, esta aí a prova de que ele fazia horrores inimagináveis. O Andrew vivia na farra e era seu amigão? Vai deixar de ser príncipe quando colocarmos o povo contra ele.

Por aqui, o monstro Bolsonaro não deu certo - se não tiver um fundo de verdade a coisa não funciona e só imbecis levam a sério os "crimes" do Bozo. Mas o da vez é o Vorcaro e talvez sobre até para o Toffoli e o Xandão. E um outro monstro, desta vez mais difuso, é o agressor ou assassino de mulheres. 

A moça que atropelou e matou o namorado com outra sumiu do noticiário, mas o cara que arrastou a mulher na marginal não deixa de ser lembrado. Fotografia de bandido condenado é rara, mas a dos moleques arrogantes que estupraram a menina em Copacabana é repetida vezes se conta. Crimes passionais, que sempre existiram, são tratados como uma pandemia que surgiu de repente e precisa ser erradicada.

Mas o pior é o show de burrice que se tornou comum nos jornais. "O número de feminicídios não para de aumentar", gritam colunistas histéricas sem lembrar que antes só existia o assassinato de mulheres e classificar alguns deles como feminicídio é algo recente que foi pegando aos poucos.

"Matam x mulheres por dia no Brasil", porém o número absoluto deve ser comparado à população; é mais grave morrer uma pessoa por ano no Uruguai que uma por dia na China. E qual é o percentual de mulheres entre os assassinatos em geral? No Brasil, cerca de 7%; nos países da Europa, de 20% até 50%.

Na Folha de ontem uma colunista lembra que 60% dos brasileiros acreditam que haveria menos estupros se as mulheres soubessem se comportar e pergunta como quem descobriu a pólvora: "Por que então até freiras são estupradas?" Porque se o pessoal estiver certo os estupros não acabariam, querida, só diminuiriam ("menos").

Em artigos desse tipo, a culpa é da sociedade. E a solução comum é "educar" os meninos na escola. É uma ideia maravilhosa, trocar as aulas de português e matemática que restaram por umas de prevenção ao estupro. Podiam também ensinar a não matar e não roubar para acabar de vez com o crime no Brasil. O Lara até teria uma desculpa: "Eu róbo por causa qui não pude frequentá a iscola."

Mas não vamos reclamar demais porque desconfio que vai ficar pior. A depender do andar da carruagem talvez ainda vejamos as moças que participavam das festinhas do Vorcaro declarando que foram abusadas por ele e só perceberam mais tarde. 



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