domingo, 15 de março de 2026

De Notre Dame ao Anticristo

Filha de imigrantes pobres do norte da África que trabalhou como empregada doméstica, criada num ambiente islâmico e obrigada a se casar com um conhecido da família, Rachida Dati deu uma volta em tudo isso e chegou aos 60 anos como uma típica francesa moderna, laica, que alcançou sucesso profissional e já foi até ministra da Justiça no governo Sarkozi.

Ela também aceitou ser ministra da Cultura na gestão de um dos primeiros-ministros indicados por Macron, o que valeu sua exclusão dos Republicanos. Mas ainda é vista como representante da antiga direita e lidera as intenções de voto para a eleição, em andamento, que escolherá o novo prefeito de Paris.

Até aí é ela contra um socialista e os jornais não se assustam. O que os apavora é que Rachida tem adotado um discurso que contém elementos comumente associados à "ultradireita" e no próximo domingo possa se apresentar para o segundo turno com o apoio da candidata deste segmento, a jovem judia Sarah Knafo, de 32 anos.

Talvez não aconteça porque Sarah tem 13% nas pesquisas e, na França, todo mundo que consegue mais de 10% no primeiro turno pode concorrer no segundo. Mas essa seria a primeira vez em que o acordo para isolar a chamada ultradireita seria quebrado, gerando uma união mortal para as tendências mais à esquerda. 

E a situação se repete país afora. Antes que a chamada ultradireita os engula como aconteceu nas eleições municipais da Inglaterra, os políticos da direita tradicional preferem se acertar com ela. O resultado disso pode ser uma grande vitória da direita. E o prenúncio de uma vitória ainda maior na eleição presidencial do próximo ano.

Repete-se assim o que parece prestes a acontecer em países como a Alemanha, cujos velhos políticos haviam decidido, anos atrás, isolar o que os jornalistas de esquerda batizaram de ultradireita. E se França e Alemanha tomarem esse rumo, a União Europeia como um todo também toma.

Em Roma

Neste momento, enquanto os franceses votam, Peter Thiel, fundador do PayPal e apoiador do MAGA, está palestrando em Roma sobre o Anticristo, visto por ele não necessariamente como uma pessoa, mas como um conjunto de "forças, mais ou menos ocultas, empenhadas em destruir o que resta do Ocidente".

Disfarçadas como defensoras da regulação tecnológica, da governança global ou da salvação contra catástrofes climáticas, essas forças maléficas incluem figuras e instituições que fingem transmitir mensagens de paz, estabilidade e segurança, mas buscam na realidade privar o cidadão de sua liberdade.

Muitos partidos políticos e organismos internacionais se enquadram atualmente nesse perfil. E muitas pessoas também. Instado a dar um exemplo de alguém que encarna adequadamente seu conceito de Anticristo, Thiel não teve dúvidas e escolheu Greta Thunberg. Toma, estranha, mais essa pra sua coleção!  

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