Num Brasil dominado por fanáticos religiosos de extrema direita, todos os negros (inclusive os nem tanto, como a atriz da imagem) são enviados de volta para a África. Na periferia de Belo Horizonte, um menino negro tenta manter seu sonho de viajar para Marte em meio às carências de sua família negra e ao caos social e político do país.
O menino não corre nenhum risco de acabar na África porque cada história pertence a um filme diferente, mas esses são apenas dois exemplos do boom vivido pela nossa produtiva indústria cinematográfica. Nunca antes na história desse país tantos filmes foram produzidos em tão pouco tempo.
E para tão poucos. Recusando-se a reconhecer a genialidade de nossos cineastas, o público os prestigia cada vez menos. Em termos de bilheteria, no ano passado, Ainda Estou Aqui arrecadou 52 milhões, O Auto da Compadecida 2 arrecadou 55 milhões, e os demais 203 filmes nacionais arrecadaram um total de 108 milhões.
Quase nada, só metade da bilheteria fica com os produtores e metade de 52 é 26, mas Ainda Estou Aqui custou 45 milhões. Considera-se que, contando os custos de marketing, o filme precisa de um retorno 3 vezes superior ao seu custo para começar a dar lucro. Se esse é o exemplo de sucesso, calcule os outros. E quem banca o prejuízo são os nossos impostos.
Enquanto as 205 obras arrecadavam 107,5 milhões (metade da bilheteria de 215), os cofres públicos eram aliviados em 1,394 bilhões - 546 milhões direto da Ancine, 437 por meio de leis de incentivo como Rouanet e 411 em linhas de crédito. Se for verdade que Ainda Estou Aqui não usou dinheiro público, como dizem, a comparação fica ainda pior.
Acho que todos sabem como funcionam esses orçamentos. Os envolvidos têm suas retiradas garantidas durante a realização da obra. Depois, se o filme der lucro, os responsáveis pelo projeto ganham mais algum; se não der, fica por isso mesmo. É uma espécie de hobby bancado pelo governo e com chance de ainda dar uma grana.
No fim, até a parte do "crédito" se transforma em doação e os controles para saber se o dinheiro foi realmente aplicado no filme só geram mais despesas com funcionários relapsos. Neste momento, há uma fila de 1.246 projetos que custaram 2,27 bilhões aguardando que sua prestação de contas seja analisada.
Preocupações
Nossos cineastas estão preocupados com essa situação e sabem quem são os culpados por ela. Em primeiro lugar o governo, que devia lhes dar mais dinheiro para ações de marketing. Depois os cinemas, que não exibem seus filmes nos melhores horários. Depois os deputados que não aprovam mais leis para proteger o setor, o público que não tem cultura para apreciar suas obras-primas etc. Todo mundo menos eles.
Mas já foi pior, muito pior. O horror aconteceu há pouco, no governo Bolsonaro. O cara acabou com a cota de tela, que protegia as obras nacionais e foi recriada quando o descondenado retornou. O inimigo da cultura ainda quis cobrar os pobres cineastas com prestações de contas irregulares. Já em termos de financiamento do setor, é melhor você ver no gráfico abaixo o desastre que ele causou.
Mesmo assim ainda fizeram um filme para homenagear esse cara, um tal de Dark Horse, realizado no exterior. Só falta agora ele atrair mais público que nossas maravilhosas produções locais.
Os dados acima foram retirados de uma reportagem da BBC Brasil que se baseou em números oficiais e publicações especializadas. Na imprensa em geral eu já vi disserem que seu querido Ainda Estou Aqui faturou quase o dobro (100 milhões), mas só o número redondinho já indica que deve ser mentira.


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