segunda-feira, 2 de março de 2026

Censor aloprado

Num filme do comediante sem graça, Jerry Lewis, havia uma senhora que passava o dia vendo TV e comprando tudo que esta anunciava. Era piada, mas tinha gente que levava a coisa a sério e queria defender os telespectadores induzidos a consumir inutilidades pelos manipuladores de vontades que controlavam a máquina maligna.

Em países como o Brasil, os preocupados obtiveram vitórias importantes com a proibição das propagandas de cigarro e o controle da voltada para crianças. Tanto sucesso tiveram na segunda que acabaram também com a maioria dos programas infantis, mas ninguém reclamou porque a garotada passou a se divertir muito mais no videogame e, logo depois, no celular com internet.

Agora querem proibir o acesso de menores às redes, o que, para ser efetivamente implementado, exigiria um controle que acabaria com a privacidade de usuários de qualquer idade. Na verdade esse é o objetivo de quem fomenta essas ideias, em geral esquerdistas preocupados com o estrago que a "informação descentralizada e distribuída" (Peter/Ancapsu) causou em seus esquemas de dominação social. 

Na Folha de ontem, duas matérias davam voz a integrantes dessa turma. Na primeira, um dos chefões, George Soros, falava abertamente no que considera ser a necessidade de controlar as big-techs malvadonas que procuram sugestionar as pessoas e controlar suas mentes através dos terríveis algoritmos.

Soros dizendo isso é o ladrão gritando "pega ladrão". Mas é interessante ver como ele elogia as medidas de censura da socialista União Europeia e o fanatismo com que defende seu ponto - um reflexo do seu desprezo pelo indivíduo que pode decidir por si mesmo e sair da rede que o incomoda como antes mudava de canal na TV.

A outra matéria é uma entrevista com o português Rui Tavares, que escreve regularmente na Folha, em geral apresentando textos que se pretendem humorísticos, mas fazem a gente pensar que o Jerry Lewis até que não era assim tão ruim. Pois o sujeito consegue ser pior como pensador sério. 

Ele fala de como os esquerdistas devem tratar a religião, de que é preciso dar esperança às pessoas para elas não votarem em candidatos do medo que vivem da mentira (que são os da direita, acho que ele não conhece o Molusco) e de todo o besteirol das discussões internas da esquerda acadêmica. No final, ele chega à censura ("regulação") da internet e solta pérolas como esta:

Aqueles que estão interessados na não regulação da internet vão tentar apresentar como liberdade de expressão o que é, na verdade, a negação da liberdade de expressão dos outros. Porque, repare, não é igual para todos um espaço público no qual eu, para falar, tenho que ser insultado. A liberdade de expressão não é a mesma para mim ou para quem me insulta. Como nós não somos todos iguais, há pessoas que, se souberem que vão ser insultadas, não vão falar.

Não é lindo? Você pode se manifestar livremente desde que ninguém se sinta insultado por suas palavras. O mais interessante é que esse pessoal nunca se coloca no papel de algoz, não passa pela cabeça do defensor da censura que imbecilidades como as que ele solta no próprio artigo da Folha sejam consideradas ofensivas por outros e o que aconteceria se estes tivessem direito a impedir a sua publicação.

Isso supondo que ele falou a sério, é evidente. Talvez tudo tenha sido outra piada sem graça, outra tentativa de fazer humor que ninguém consegue entender.


Final do artigo do Ex-tadão de ontem, em que Fernando Schüler comenta a absolvição de um comediante de verdade: "A pergunta, em todo este episódio, não é se as piadas do Léo Lins são ofensivas ou não. De minha parte, não irei a seus shows. É minha escolha. A pergunta é se desejamos viver em um país em que o Estado tome essa decisão em nosso lugar. É isto que está em jogo em todo este debate."

Nenhum comentário:

Postar um comentário