terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quem é o radical?

Já percebi que o assunto não chamou muita atenção por aqui, mas ontem, na Folha, por coincidência, o português João Pereira Coutinho, que não pode ser acusado de ter alguma simpatia pela direita, abordou a morte do francês Quentin Derranque de um ângulo não muito distante do nosso.

Na primeira parte de seu artigo, Coutinho dá um enrolada para alfinetar Trump, dizer que há radicais dos dois lados e lembrar que alguns mudam de lado - mas o exemplo dado são Mussolini e os parças que saíram do socialismo e do PC para fundar o fascismo. O que nos interessa é a parte final, a seguir em azul.

Se existe diferença entre os dois lados, ela não está entre os marginais. Está na distância que os moderados mantêm em relação aos marginais — imensa à direita; menor à esquerda.

Isso, Coutinho, muito bem. Poderíamos acrescentar que a mesma diferença se verifica na questão da roubalheira, o cara de esquerda pode mandar o irmão roubar aposentados para dar mesada ao filho sem muito risco do seu apoiador abandoná-lo.

O jornalista Barton Swaim chamou a atenção para essa geometria variável. Olhemos para a retórica da extrema direita, baseada em falsidades supremacistas, desprezo pela democracia parlamentar, misoginia virulenta ou paixão delirante por teorias conspiratórias. Haverá algum liberal clássico ou conservador liberal que, de forma explícita ou implícita, nos EUA ou na Europa, se aproxime desse lixo ideológico? Se há, eu desconheço: esses temas são repulsivos para qualquer democrata de direita – e o terrorismo cometido em seu nome é ainda mais repugnante.

Faltou dizer que os caras que defendem realmente isso são uma ínfima minoria, mas a turma trata toda a direita (incluindo a que tem voto: Trump, Bolsonaro, AfD etc) como se fosse assim. Você mesmo faz isso, Coutinho.

Observemos agora a extrema esquerda, que ataca e destrói em nome do anticapitalismo, do antissionismo, da igualdade radical, do ambientalismo purificador, da luta contra as "fobias" (homofobia, transfobia etc.). Qualquer desses temas, de forma mais ou menos diluída, encontra eco numa parte da esquerda progressista.

E também no grupo de zap do Sciences Po, e na USP... onde você quiser. Esse é o ponto, quem é realmente radical é a esquerda. O que só não é reconhecido pela mídia porque ela a domina e se autorretrata como normal. Dez, Coutinho, nota dez. Mas vamos seguir com você até a dispersão.

Dito de outra forma: é improvável encontrar colunistas liberais ou conservadores liberais defendendo na grande imprensa a superioridade da raça branca ou a subjugação das mulheres. Isso é conversa de manicômio. O mesmo não se passa entre muitos progressistas: como afirma Swaim, com razão, os temas que levam a extrema esquerda à violência são explorados tranquilamente nas colunas de opinião do New York Times.

Sim, sim, a imprensa, acabamos de falar.

Se ainda restassem dúvidas, bastaria lembrar o que se disse ou escreveu quando Luigi Mangione assassinou Brian Thompson, CEO de uma seguradora de saúde nos EUA ("Matar é errado, mas..."). Ou quando Tyler Robinson fez o mesmo com o ativista ultraconservador Charlie Kirk ("Foi um crime, mas..."). Esse "mas", escreve Swaim, é uma confissão de cumplicidade.

Olha aí a pisada a que nos referimos antes, Coutinho. Você chama de ativista ultraconservador um sujeito que não tinha nada de supremacista ou coisa que o valha. Mas de resto está ok, vamos parar por aqui porque o finalzinho não tem importância para o tema.

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