Parece que as pessoas não conseguem compreender como é possível ficar contra as duas posições. É difícil fazer com que elas entendam esse ponto intermediário. No meu círculo íntimo nos encontramos nessa batalha interna. Sem dúvida, fico alegre ao ver Maduro algemado. Mas, por outro lado, preciso agradecer a Trump por isso?
As palavras são de Gabriel, um membro da "comunidade LGBT" que precisou fugir da Venezuela com a roupa do corpo, mas se considera representante "de tudo aquilo que Trump é contra". E quem lhe deu espaço para se manifestar foi Alicia Hernández, uma venezuelana da BBC que hoje trabalha em Londres.
O objetivo da jornalista é semelhante ao dos coleguinhas brasileiros que citamos ontem: encontrar um jeito de criticar Trump pela intervenção na Venezuela sem escancarar ao estilo Brasil 247. E até que ela foi criativa ao atribuir o incômodo a fontes anônimas, numa espécie de "diz leitor" ao estilo BBC.
Outra depoente é Ana, que vive em Caracas, foi educada como esquerdista e é contrária a tudo que recorde o "intervencionismo americano". Ela escutou os terríveis ruídos do ataque em sua casa, chorou de ansiedade enquanto eles aconteciam e se sente muito mal ao ver as fotos do bunker de Maduro destroçado.
Ana tem bronca da Maria Corina Machado por ter solicitado intervenção estrangeira e querer governar no lugar de Maduro. Ela nada disse sobre o intervencionismo cubano, chinês e russo, mas também não gosta do Maduro, e não gostava do Chavez porque ele era militar. Seu governo ideal é nenhum dos atualmente possíveis.
E assim vai a reportagem da Alicia, abrindo espaço para os isentões da Venezuela e tratando-os como se fossem muito diferentes dos demais. Não são, qualquer um sabe que nada é perfeito. A diferença é que as pessoas normais também sabem que é preciso escolher entre o que se apresenta no momento.
A Ana não precisa gostar da Maria Corina nem o Gabriel precisa agradecer ao Trump. Basta reconhecer que sua intervenção representa um enorme avanço em relação à narcoditatura bolivariana. Se depois der para ficar melhor será ótimo, mas não apoiar o americano agora equivale a apoiar o Maduro e afundar ainda mais o país.
O ótimo é inimigo do bom. Com a desculpa de que todas as opções contêm problemas (o que sempre será verdade), o vaidoso isentão é um tapado que normalmente ajuda a instalar ou manter a pior.

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