De repente, os colunistas de nossos jornalões descobriram que Maduro era um ditador e o regime bolivariano continua a ser uma ditadura. A maioria deles até reconhecia isso antes, é verdade, mas usando eufemismos como "autoritário" ou "exagero", sem a ênfase e a frequência com que tratam desses assuntos de uns dias para cá.
Amantes da democracia, eles já não admitem que só alguns poucos prisioneiros políticos tenham sido soltos, que os venezuelanos ainda não possam falar o que pensam e que vejam adiada sua liberdade. E eles sabem quem é o grande responsável pela manutenção desse horror.
O culpado chama-se Donald Trump. Ele tirou Maduro do poder, ok, mas isso são águas passadas e nossos escribas não querem mais saber desse ditador ou do que aconteceu até ontem. O problema é que o bigode deveria ter sido substituído pela Corina Machado ou pelo Edmundo González, os verdadeiros vencedores da eleição roubada.
Trump, argumentam os nobres jornalistas, está com a faca e o queijo na não, não faz a transição porque não quer. Porque é um cínico, um malandro interesseiro que só queria pegar o petróleo da Venezuela e está pouco se importando com o bem-estar de seu povo. Se tem ditadura por lá, a culpa é toda dele.
É claro que você pode argumentar que Trump está tentando evitar conflitos mais sérios, dar tempo dos próprios chavistas desarmarem os vagabundos dos "coletivos", não pressionar em demasia os militares, acostumar todo mundo com a ideia de que a oposição vencerá a próxima eleição e assumirá o poder.
Você pode até citar um exemplo histórico, dizendo que isso guarda semelhanças com o que os americanos fizeram com absoluto sucesso no Japão após a guerra. Mas não adianta, nossos colunistas amam a democracia de paixão e não suportam que Trump mantenha a ditadura da Venezuela por mais um minuto.
Menos mal, dizem eles, que por aqui nós não temos esse problema. Tivemos uma ameaça com Bolsonaro, um inimigo de Maduro que queria ser como ele. Mas elegemos Lule, um sócio-irmão de Maduro que nunca quis ser como ele. E depois foi só salvar a democracia com julgamentos tão honestos quanto nossas eleições.
Alguns talvez contestem essa narrativa, mas os democratas da nossa imprensa garantem que as reclamações são fake news de extremistas. Nosso sistema não é perfeito, eles reconhecem, mas suas falhas são estatisticamente desprezíveis: um gesto "autoritário" aqui, um "exagero" ali, coisa pouca, irrelevante.

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