sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

True crime

Benitinho, que era assim chamado por compartilhar o nome e a careca com o líder italiano da época, aterrorizou a Mooca nos anos 30 do século passado. Agressões, extorsões, tráfico de influência, cárcere privado, de tudo ele e seu bando faziam com a arrogância da impunidade, pois as pessoas temiam denunciá-los.

Um dia, no entanto, acusaram-no formalmente de um crime e, após um arrastado processo, acabaram por condená-lo. Restava apenas saber a quanto tempo, pois o juiz se disse indeciso e mandou prendê-lo provisoriamente enquanto pensava no caso. 

Acontece que, apesar de toda a sua marra, Benitinho nunca havia sido preso antes e sentiu o peso do ambiente. Comida horrível, acomodação ainda pior, perigo constante. Passou o primeiro dia se perguntando quanto tempo conseguiria aguentar aquilo, o que o juiz afinal decidiria.

Pensou que sua dúvida seria sanada na manhã seguinte, quando o reconduziram ao prédio do tribunal. Porém, para sua surpresa, levaram-no para o gabinete do juiz que o julgara, que, tão logo a porta se fechou e eles ficaram sozinhos, foi lhe dizendo:

- Muito bem, seu Benito, meus parabéns, o senhor tem amigos poderosos. Fiquei sabendo porque um deles me procurou com uma oferta para aliviar sua situação. E, sendo franco, eu fiquei bastante interessado, mas há questões técnicas que eu preciso respeitar e envolveriam a sua colaboração.

- E quais seriam?

- O ponto é que eu não posso anular seu julgamento de imediato. Mas eu posso suspender a execução da sua pena durante um período em que o senhor ressarciria algumas de suas vítimas, deixaria de perseguir outras etc. Eu escolheria esses casos a dedo e, depois de alguns meses, os utilizaria para argumentar que o senhor se regenerou e merece ter sua condenação revertida. Isso exigiria outro longo processo, mas ao final dele o senhor estaria totalmente liberado. O que lhe parece? 

- Nossa, doutor, seria maravilhoso. Mas tem uns problemas que o senhor precisa saber.

- E quais seriam?

- O principal é que o mundo do crime também tem suas regras. Se eu ficar bonzinho de repente o pessoal vai deixar de me respeitar e vai vir pra cima de mim. Pior, podem pensar que eu virei cagueta. E aí eu não vou durar muito tempo.

- Compreendo. E como o senhor resolveria isso?

- Eu começaria mandando espalhar que fui inocentado e agora que enganei a justiça vou ficar até pior do que antes. E no começo eu pareceria mesmo pior, inclusive com esse pessoal que o senhor quer proteger. Mas depois eu inventaria que a polícia está pegando muito forte nesses casos e é melhor a gente mudar o foco ou coisa do tipo. O senhor acha que poderia ser assim?

- Acho que sim, seu Benito, podemos nos entender. Eu vou liberá-lo e depois mando alguém para acertarmos os detalhes operacionais de nosso acordo. O senhor saiu cedo do presídio, chegou a comer algo de manhã?

- Até daria tempo, mas o grude lá é tão ruim que eu nem tive apetite, doutor.

- É verdade, aquilo é pavoroso. Mas faça o seguinte: espere na sala ao lado que eu vou mandar a secretária liberar um suco de laranja e um café pro senhor. Foi uma satisfação, passar bem. 


Bom, apesar do que aconteceu depois parecer corroborá-la e dela ser verossímil, não há provas cabais de que essa história é verídica como sugere o título. Mas é assim, como se fosse, que a contam na Mooca até hoje.


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