O artigo da Paula Schmitt sobre a operação do último dia 28 é muito longo para os atuais padrões jornalísticos brasileiros, mas você pode acessá-lo na íntegra aqui. O texto abaixo inclui quase toda a sua parte inicial e é seguido pela nota da entidade mencionada em seu título.
O Viva Rio e a morte do morro
Nos últimos dias, o Brasil assistiu boquiaberto a algo inusitado, quase chocante: a grande mídia foi impedida de mentir pelo próprio público que finge servir. Ultrapassada pelas redes sociais na corrida pela informação, a pequena imprensa não teve escolha – foi obrigada a mostrar a verdade sobre a operação no Complexo da Penha, um sucesso de público, técnica, tática e resultados.
Testemunhamos nesses últimos dias a bravura de policiais quase suicidas e a voz finalmente audível de uma população que vive sob o terror diário do medo constante de que um dia encontrará a morte fácil e frívola na esquina de casa.
Na favela, uma vida pode acabar da forma mais cruel, pelo motivo mais torpe: um olhar atravessado, uma paixão pela moça que o traficante quer pegar; uma gaiola roubada, um pé no qual se pisou sem querer. Num lugar onde o Estado não entra, a força é ainda mais bruta e o declive hierárquico ainda mais íngreme.
De tudo que vimos, contudo, as cenas mais grotescas não continham uma gota de sangue. Elas mostram apenas uma ausência, uma distância indecorosa entre o que é pregado pelas elites da esquerda e o que é vivido pelo povo que essa elite simula representar. Essa alta casta de “narcisistas do Leblon” – formada por atores, políticos de ONGs e sociólogas do cabelo laranja – só sobe a favela quando ela é fechada para locação de filme ou quando a cocaína acaba e o i-Drog tá de folga.
Mas como chegamos até aqui? Como foi possível que essa elite tenha fabricado uma realidade tão falsa que transformou em monstro o único anjo da guarda do pobre trabalhador: o policial que protege o garçom que volta tarde pra casa, a babá que sai cedo para o trabalho, o entregador que reza para não ser parado por traficante pra fazer um corre obrigatório?
Como podem esses policiais, que arriscam a vida diariamente por um salário vergonhoso, serem todos retratados em grupos como animais de uma mesma espécie peçonhenta por uma casta que nunca vai precisar deles –porque essa casta vive em condomínios fechados, dirige em carros blindados e é protegida por seguranças privados que carregam armas negadas ao homem de bem?
Como é possível que bandidos tenham acesso a fuzis que nem a polícia tem, com calibre que fura tanque? Que leis e justiça são essas que favorecem sempre os mais fortes, e fazem a posse desses fuzis “valer a pena” para o traficante porque as leis o protegem, como explicou o especialista no excelente documentário da Brasil Paralelo, “Rio de Janeiro: Paraíso em Chamas”?
“Asfalto” é como os moradores das favelas do Rio se referem à parte da cidade onde existe esgoto, calçadas, árvores, cestas de lixo, luz do sol e sinais de tráfego. No asfalto, o poder está nas mãos de quem tem dinheiro. Na favela, o poder está nas mãos de quem tem armas.
A esquerda, como já ficou claro pra quem tem o cérebro sadio, defende os poderosos desses dois universos. Mas o que aconteceu para a esquerda abandonar o trabalhador? Por que Lula disse que traficantes são vítimas, e não algozes?
Por que bandidos são protegidos e suas vítimas, completamente ignoradas, enquanto a população honesta e pobre é usada como escudo humano por políticos e bandidos, reféns de uma imposição geográfica que protege os piores elementos da sociedade, que só perdem na sua imoralidade para os políticos e juízes que recebem a comissão no fim do mês e a garantia de que estarão protegidos?
A resposta, para simplificar, é o Consenso Inc., a mesma indústria do condicionamento que na pandemia conseguiu transformar em ciência verdadeiras bestialidades lógicas. E um dos principais instrumentos desse monopólio que controla a mediação da realidade são ONGs financiadas por bilionários, escritórios “sem fins lucrativos” que servem para lavar dinheiro e intenções, transformando interesses bastante privados e nefastos em “projetos para o bem da comunidade”.
Numa imprensa honesta, o trabalho mais frequente de um bom jornalista seria a ligação de pontos. Mas a atividade de ligar os pontos foi transformada em exercício conspiracionista, em fetiche de maluco, uma ação lógica criticada pela mídia, pela CIA e por outras agências de engenharia social como se fosse o exercício mais absurdo do mundo –exatamente porque ele é o mais inteligente e revelador.
É ligando os pontos que ficamos sabendo de onde veio o dinheiro e para onde ele vai. É na investigação das conexões subterrâneas entre ONGs, políticos e bilionários que levantamos duas das heurísticas mais importantes para entender o mundo: follow the money e cui bono.
Por isso eu sou fã de Erika M. da Veiga, que me inspirou a ler um artigo de 1996 que associava a ONG Viva Rio a um grupo de bilionários que vêm saqueando o Brasil há décadas. Num tweet antigo que emergiu no rastro da operação policial na Penha, Erika cita um artigo publicado no Executive Intelligence Review que afirmava, 30 anos antes da operação, que a ONG “Viva Rio é definitivamente um dos mais sofisticados exemplos dessa rede”, e que sua “tarefa mais importante é criar um experimento de controle psicológico de massa seguindo o modelo de guerra psicológica conduzido pela infame clínica Tavistock da oligarquia internacional britânica”.
O resto dá para adivinhar, ou dá para ler no artigo da Paula. Encerramos com a nota da Viva Rio sobre a operação na Penha e no Alemão:
O Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro, extrapolou seus já altos níveis de mortandade e vivenciou cenários tristes e revoltantes de agressões e confronto. O Viva Rio, que nasceu da revolta de duas chacinas na cidade, não pode se acostumar com a repetição dessa história. Cada vida é importante. O Estado deve assegurar a segurança dos cidadãos e enfrentar a criminalidade e suas múltiplas expressões de domínio territorial, mas não pode abdicar de sua condição essencial de preservação da vida, sobretudo ao colocar em risco milhões de moradores de favelas e periferias.
Uma operação com recorde de letalidade não pode ser celebrada, ao contrário, deve ser rechaçada, como medida de segurança pública. No Dia de São Judas Tadeu (28), devemos nos conscientizar que esta causa, para não ser impossível, precisa ser tratada com inteligência e estratégia, que incluam a preservação da vida, articulação comunitária e a responsabilidade judicial. O Viva Rio se solidariza com os moradores de favelas e periferias por mais um dia de temor e desesperança, e com as famílias de todos que perderam a vida.

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