Estamos vivendo o luto dos complexos do Alemão e da Penha e a gente pode considerar que Kehinde talvez seja uma dessas mulheres negras que perderam um filho. A Folha mostrou que a maior parte dos mortos tinha apenas a descendência feminina. Essas mães perdem os filhos, procuram seus filhos, mas não perdem a esperança.
Bem, a Folha relatou que cerca de um terço dos mortos nos complexos não tinha o nome do pai na identidade, quem disse que um terço é maioria foi a historiadora Lilia Schwarcz e a frase foi proferida na Academia Brasileira de Letras - não de Matemática, felizmente. Mas quem diabos é Kehinde?
"Símbolo de milhões de vítimas sequestradas na África e escravizadas no Brasil", Kehinde vive em busca do filho Omotunde ao longo das 950 páginas de Um Defeito de Cor, segundo livro da escritora Ana Maria Magalhães, publicado em 2006 - Ana não escreveu outro depois, mas promete tirar o atraso em breve.
Bem (2), Kehinde foi escravizada na África mesmo. E a resenha diz que ela se casou com um português que deve ter registrado o filho normalmente; depois de vincular mães que procuram filhos às que não sabem quem foi o pai, Lilian misturou de novo as estações. Mas por que estamos falando disso tudo?
Porque este é um daqueles momentos históricos que você vai poder contar para os netos que viveu: Ana Maria Magalhães é a primeira escritora negra a chegar à ABL. E chegou com tudo, anunciando que vem falando pretuguês. Até a plateia tinha uma maioria negra, fez questão de nos contar a Folha.
Foi de lavada, Ana disputou a vaga com a escritora indígena Eliane Potiguara e venceu por arrasadores 30x1. Desconfio que só quem votou na Eliane foi o índio que usa aquela língua parecida com o português - portupiguês? - e deve ter se magoado com o desprezo dos colegas por sua etnia.
Mas fazer o quê? Não dá para reparar as injustiças com as minorias todas de uma vez. No começo não tinha nem mulher, agora já tem um homem índio e uma mulher negra. Chegará o dia em que uma mulher indígena vestirá o fardão, mas acredito que a próxima vaga deve ser dada a uma escritora trans.
É uma oportunidade óbvia, que está aí para alguém pegar. Erika Hilton poderia começar a reunir seus tuítes para publicar um livro, a Câmara paga. Ou a honra poderia caber a Vai Curíntia!, título hipotético que inventei agora para a obra em que Duda Salabert resgataria suas vivências.
Se bem que não sei se essas candidatas teriam chances reais de vitória. Com experiência na política, era capaz delas a utilizarem para tentar assumir a presidência da casa. E isso o Merval com certeza não pretende permitir.

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