quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Longe demais

Dezembro de 1989, o Muro de Berlim havia caído há pouco mais de um mês e o brasileiro saía de casa para escolher um presidente por eleição direta quando a polícia paulista estourou o cativeiro em que uma quadrilha de sequestradores mantinha o empresário Abílio Diniz.

Os terroristas pertenciam ao MIR, grupo chileno de extrema esquerda que seguia a orientação do comunismo internacional para se capitalizar com sequestros - decisão tomada no ano anterior na Alemanha Oriental, país que um dos candidatos daquele segundo turno confessara à revista Playboy considerar o seu modelo ideal. 

Mas isso havia sido antes. Quando outro candidato mostrou imagens dos alemães pulando o muro sob o jingle satírico "pulalá", ele jurou que nunca apoiara aquilo. E mais indignado se mostrou quando encontraram farto material de seu partido junto aos sequestradores. Ele nem os conhecia, era tudo "maracutaia", armação política.

No ano seguinte, todavia, ele e o ditador assassino de Cuba fundariam o Foro de São Paulo "para recuperar na América Latina o que havia sido perdido na Europa Oriental". Entre as entidades do bloco estavam os bandidos sandinistas da Nicarágua, os narcoterroristas das FARC... e o MIR.

Já repleta de militantes esquerdistas, a mídia dizia que o Foro era uma fantasia. Mas já havia internet e, sabendo o endereço (não existia Google), você podia acessar a página em que eles registravam suas reuniões e quem delas participava. Só não dava para contar para todo mundo porque, sem redes sociais, prevalecia a mentira dos jornalistas.

O cinismo da militância de redação era tamanho que volta e meia um jornal publicava um artigo culpando a maracutaia pela perda (o candidato diria "perca") da eleição de 89. E no outro dia saía uma reportagem sobre a luta de membros daquele partido para libertar os "prisioneiros políticos" do MIR, o que acabaram conseguindo.

Nada disso foi novidade, quem já tinha prestado atenção aos casos Celso Daniel e Toninho só votava nessa gente se não tivesse vergonha na cara. Mas a maioria não prestou, o candidato foi repaginado por marqueteiros para vestir a máscara de homem comum e acabou se elegendo em 2002.

E conseguiu se manter no poder depois. Criou alguns dos maiores esquemas de corrupção da história, degradou instituições, tentou seguir o caminho autoritário de seus pares no Foro... Mas a junção entre canalhas e analfabetos (que ganharam direito a votar em 1985) acabou cobrando seu preço.

Nesse tempo, o que também evoluiu foram as facções criminosas. Surgindo sob a orientação dos terroristas de extrema esquerda, elas se aproximaram do modelo das FARC e uniram o tráfico de drogas ao domínio territorial. Hoje 15% da população brasileira já vive sob o jugo desses grupos. E o número sobe a cada ano.

Claro que o fundador do Foro de São Paulo vai dizer que os membros dessas gangs são vítimas da polícia e dos usuários de drogas. Mas acho que ninguém esperava que ele fosse tão longe, fosse tão descarado. Francamente, essa ideia de dar uma pensão vitalícia à familia do narcoterrorista morto pela polícia é demais!


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