O vídeo mostra dois homens ajoelhados, com as mãos nas costas e a cabeça encapuzada. Atrás deles, de pé, dois barbudões com túnica e turbante; um segura uma AK, o outro ameaça matar os reféns se o povo da Itália não lhes pagar um resgate de bilhões de dólares em bitcoins.
De repente os "reféns" retiram o capuz e todos começam a rir. Não era um sequestro; era um vídeo promocional da Talitur (ou seja lá como se chame a agência que cuida disso no regime Talibã), convidando você, ocidental preconceituoso, a conhecer o exótico e misterioso Afeganistão.
É, amigo, todos dão seus pulinhos; com o fim da grana da Usaid os talibãs tiveram a ideia de desfazer aquela imagem estereotipada de fanáticos assassinos, mostrando seu lado brincalhão para atrair dólares de turistas estrangeiros.
Está funcionando? Os resultados ainda são modestos para uma população de 36 milhões de habitantes. Mas os números já vinham crescendo nos últimos anos, passando de 700 turistas em 2021 (ano da retirada americana) para 9000 em 2024. Agora, com campanha de marketing, a coisa pode explodir.
Explodir, entenderam? Essa eu acabei de bolar, vou mandar para a Talitur.
Mas é evidente que não bastam só frases de efeito, o importante é o circuito. O vídeo do falso sequestro continua com os italianos embarcando no transporte especializado - a garupa das motinhos dirigidas pelos sorridentes barbudões - e passando por diversos pontos do país.
Tem umas cenas de Cabul, uma mesquita, um lago; depois uma bucólica aldeia perdida em meio às montanhas, umas cabras, uma feira repleta de produtos e vestimentas típicas, outra aldeia poeirenta, outra feira, mais cabras... É como se fosse um folheto turístico brasileiro mostrando uma praia atrás da outra, só que sem praia.
São problemas de uma terra árida, de uma nação pobre que no início deste século tinha apenas 50 km de estradas asfaltadas. Mas os talibãs sabem que tudo é uma questão de posicionamento mercadológico e esbanjam criatividade em conceitos inovadores como o "não ponto".
Nessa modalidade, que tem tudo para conquistar aqueles descolados que pagam milhões por quadros em branco, eles levam o visitante até uma montanha onde não tem nada e dizem: "Sabe os Budas de Bamiyan, aquelas centenárias estátuas gigantescas que nós explodimos em 1999? Pois é, elas ficavam aqui."
Outra exclusividade nacional diz respeito ao gênero. Mulheres estrangeiras não podem andar na garupa de barbudões e as afegãs não podem dirigir motinhos, o que dificulta o turismo feminino. Mas essa desvantagem pode se transformar no contrário se a Talitur aceitar a minha segunda sugestão.
Turismo Red Pill, voltado para a rapaziada! Sexo com as locais eu sei que não rola, pode acabar em morte. Mas aproveitem que as mulheres daí são obrigadas a obedecer aos homens e ofereçam grupos delas para o turista exercer uma autoridade que jamais teria em outro lugar.
Não liguem para a gritaria das feministas, tratem isso como um produto normal. Ofereçam descontos para pacotes com várias irmãs, cobrem taxas adicionais de quem quiser chicotear as rebeldes, e por aí afora. As críticas dos jornais ocidentais servirão de propaganda grátis e as receitas do turismo vão bombar.
Bombar, captaram?

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