domingo, 21 de setembro de 2025

Mil anos de história

A Rússia não começou em Kiev, hoje capital da Ucrânia? Os dois países não eram mesmo um só, como diz Putin? Publicados na The Economist e copiados com mínimas alterações, o texto e os mapas abaixo contam essa história com mais detalhes, dos vikings aos dias de hoje. Momento The Club History. Será?

Um milênio de alterações

Em 2021, Vladimir Putin publicou um ensaio com argumentos que mais tarde usaria para justificar a invasão da Ucrânia. O texto percorreu mil anos para argumentar que russos e ucranianos são um só povo, cruelmente dividido por "forças externas" com uma agenda "antirrussa". Sua guerra deveria consertar isso. Hoje a Rússia controla quase 20% do território ucraniano. Em agosto, durante o encontro de Putin com Trump no Alasca, líderes americanos sugeriram que "trocas de terras" poderiam fazer parte de um futuro acordo.

É verdade que Ucrânia e Rússia são parentes próximos, como demonstram os mapas a seguir. O que é absurdo é a afirmação de Putin de que a separação em dois países é resultado de alguma conspiração externa, imposta aos ucranianos contra sua vontade.



Para Putin, a origem da identidade russo-ucraniana é a Rus de Kiev, uma confederação de principados que durou do final do século IX a meados do XIII (mapa 1). Seu centro era Kiev e seus governantes eram os Rus, vikings escandinavos que gradualmente dominaram a região e se fundiram com tribos eslavas locais. Em termos de tradição política e cultural, a Rus de Kiev é de fato o berço da Rússia, da Ucrânia e da atual Bielorrússia. Foi uma civilização europeia refinada com raízes no Império Bizantino e em sua religião cristã ortodoxa.

Em meados do século XI, a Rus de Kiev começou a se fragmentar em principados semiautônomos (mapa 2) como a Galícia-Volínia, que abrangia partes da atual Ucrânia e Bielorrússia, Novgorod, no noroeste da atual Rússia, e Vladimir-Suzdal, na Rússia ocidental. Em 1240 o império mongol destruiu o que restava da Rus de Kiev como entidade única.



O império mongol e seus sucessores começaram a declinar no século XIV. No leste da região, o poder acabou se acumulando em Moscou, levando à criação do Grão-Principado da Moscóvia. A oeste, o que havia se tornado o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia criaram a Comunidade Polaco-Lituana em 1569.

Em 1648, os cossacos, colonos das estepes unidos em unidades militares disciplinadas, se revoltaram contra a comunidade e formaram o Hetmanato (mapa 3). Muitos ucranianos consideram o Hetmanato a origem de seu país. De fato, as terras cossacas originais eram chamadas de "Ucrânia", palavra eslava que significa "terra de fronteira".

Os primeiros cossacos praticavam uma forma limitada de democracia, em contraste com o regime autocrático da Moscóvia. O fato do Hetmanato ter surgido como um ato de resistência a potências vizinhas maiores ressoa entre os ucranianos hoje. No século XIX, a memória popular do estado cossaco inspirou um nacionalismo cultural ucraniano.

Mas o estado cossaco passou por momentos difíceis. Em 1654, ameaçados pelos poloneses ao norte e pelos otomanos ao sul, os líderes cossacos juraram lealdade ao czar da Moscóvia. Algumas décadas depois, intelectuais em Kiev escreveram um texto que delineava as bases de uma nação "eslavo-russa". Eles esperavam convencer o czar a defendê-los em nome de sua história compartilhada, da religião ortodoxa e da unidade étnico-nacional.

No final do século XVII, o território do Hetmanato foi dividido em dois: a Moscóvia assumiu o controle da margem leste do rio Dnieper, e a Comunidade Polaco-Lituana tomou a oeste. Em 1708, o cossaco Ivan Mazepa liderou uma revolta fracassada contra o czar Pedro, o Grande. De modo significativo, a Rússia considera Mazepa um traidor; na Ucrânia ele é um herói.

No final do século XVIII, o Império Russo desmembrou a Comunidade Polaco-Lituana com a ajuda da Áustria e da Prússia. Os russos também tomaram dos otomanos territórios no que hoje é o sul da Ucrânia. Isso incluía a Crimeia, anexada à Rússia por Catarina, a Grande, em 1783. A situação se manteve até as vésperas da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Russo estendia-se do Mar do Japão ao Báltico (mapa 4).

Em 1917, a dinastia Romanov foi derrubada e o poder foi tomado pelos bolcheviques. Autoridades em Kiev fundaram a República Popular Ucraniana (RPU), que se declarou independente em janeiro de 1918. Lenin acabou por tomar a RPU à força, mas se viu compelido a criar uma república socialista ucraniana e a permitir o uso da língua ucraniana. Em 1922, a Ucrânia tornou-se um dos quatro membros fundadores da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

O território da Ucrânia expandiu-se durante o período soviético. Sob o pacto de não agressão da União Soviética com a Alemanha, assinado em 1939, os dois países dividiram a Europa Oriental. Nos combates que se seguiram, o que antes eram partes da Polônia colonizadas por ucranianos foi adicionado à Ucrânia Soviética. Em 1954, a União Soviética transferiu a administração da Crimeia da Rússia para a Ucrânia.

Mas a Ucrânia também passou por grande sofrimento. Na década de 1930, a coletivização forçada da agricultura de Stalin levou ao Holodomor, uma fome que matou milhões. E durante a guerra a Ucrânia foi um território no qual Hitler e Stalin permitiram os crimes um do outro contra os habitantes locais. A cooperação entre nacionalistas ucranianos e os nazistas é citada por Putin como evidência de que a Ucrânia de hoje é governada por fascistas. 


Em 1986, nos últimos dias da União Soviética, o pior acidente nuclear do mundo ocorreu em Chernobyl, na Ucrânia. Os danos e o acobertamento subsequente aumentaram a indignação dos ucranianos em relação ao Kremlin.



Na década de 1980, Mikhail Gorbachev, o último líder soviético, propôs-se a reformar a União Soviética por meio da abertura e da reforma — a glasnost e a perestroika. Mas os europeus orientais, sujeitos ao controle soviético por meio do Pacto de Varsóvia, aproveitaram a oportunidade para exigir sua liberdade. Em 1991, a própria União Soviética entrou em colapso, trazendo a independência às suas 15 repúblicas constituintes (mapa 6). 

A Ucrânia tornou-se repentinamente o lar do terceiro maior arsenal nuclear do mundo. Em 1994, concordou em desnuclearizar-se em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Federação Russa. (A Ucrânia usou esse acordo para pedir ajuda aos Estados Unidos e ao Reino Unido às vésperas da invasão russa em 2022.)



Na "Revolução Laranja" de 2004-05, milhares protestaram contra a fraude eleitoral que deu a vitória ao candidato pró-Rússia. A opção democrática da Ucrânia se acentuou durante a "Revolução de Maidan" em 2013-14, uma reação à recusa de Yanukovych, presidente pró-Rússia, em assinar um acordo de associação com a União Europeia. Milhares foram às ruas; Yanukovych fugiu para a Rússia. O novo governo assinou o acordo, enfurecendo Putin.


Sua resposta ao Maidan deu início à fase militar do conflito. Em 2014, o Kremlin anexou a Crimeia e enviou tropas para Donbass, região em que predomina a língua russa no leste da Ucrânia (mapa 7). Liderados por agentes russos, separatistas declararam "repúblicas populares" em Donetsk e Luhansk. No final de 2021, pouco antes da invasão em larga escala da Rússia, o conflito havia matado mais de 14.000 pessoas. A guerra continua.

Imagem: Juramento de lealdade dos cossacos ucranianos ao czar da Rússia em 1654, pintura do russo Alexei Kivshenko (1851-1895).


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