sábado, 5 de abril de 2025

Liberta sem libertar

É melhor ser amigo do Silas Malafaia. Faz tempo que o cara fala cobras e lagartos do STF e do "ditador de toga" sem que nada lhe aconteça. E agora o vingativo juiz ainda o atende, mandando soltar a moça que o pastor passou a defender individualmente após a domiciliar da Débora, a "terrorista do batom".

Agora é a "terrorista do livro", missionária Eliene Amorim de Jesus, fiel da mesma igreja de Malafaia, manicure e estudante de psicologia que foi presa em março de 2023 por relatar, nas redes sociais, sua experiência como escritora de um livro sobre o movimento de revolta popular que eclodiu após a eleição de 2022.

Ela chegou a Brasília em 6 de janeiro para acompanhar os acampamentos em frente aos quartéis e, segundo testemunhas, observou os atos do dia 8. Voltou para a quitinete onde vivia, em São Luís do Maranhão. E dois meses depois foi detida e enviada para a penitenciária de Pedrinhas, aquela onde jogavam futebol com a cabeça de detentos.

Ficaria jogada lá não se sabe até quando se o seu caso não tivesse atraído a atenção de pessoas como o jornalista José Linhares Jr. e Malafaia. Disposto a entregar alguns anéis para manter as garras sobre os demais prisioneiros políticos, Moraes farejou o nascimento de outra Débora e a beneficiou com um mandato de soltura clausulado.

De acordo com as cláusulas do seu caso, ela precisará usar tornozeleira eletrônica, não poderá acessar redes sociais, comunicar-se com envolvidos no 8 de janeiro, dar entrevistas ou receber visitantes além de seu pai, seus irmãos e seu advogado (Hélio Garcia Ortiz Jr., que também representa a Débora).

É melhor estar no quiti que na cela, mas a prisão continua. Nem visita do namorado (supondo que ela tenha ou arrume um), que qualquer criminosa comum tem direito a receber, Xandão permitiu no seu caso. Só faltou ele definir a que horas ela pode fazer compras e com qual caixa do supermercado pode falar.

Mas talvez haja uma saída. Eliene é escritora e poderia escrever cartas para pessoas que lhe responderiam da mesma forma. Os que se comunicassem com ela desse modo poderiam publicar prints das cartas nas redes sociais e assim por diante. O mandato não proíbe nada disso, ao que parece.

Se ela fizesse algo assim ficaria tudo bem? Ou Xandão a acusaria de "utilizar de forma ardilosa meios conexos com o claro e manifesto objetivo de fazer descumprir decisão judicial" (ou coisa que o valha) e acabaria por enviá-la de volta para o calabouço? Acho que ela não vai querer arriscar.

Outra opção seria ela escrever um novo livro, uma obra de ficção sobre uma jovem inocente que passa a ser perseguida por um juiz que não respeita as leis e faz o que quer. Mas o problema seria o mesmo, quem garante que o careca não a acusaria de usar subterfúgios para atacar a ordem democrática?

Se a gente já pensa assim, imagine a Eliene. Esse é o problema de você não ter mais leis para se basear, tudo depende da vontade do juiz e você precisa tentar adivinhá-la. No fim a prisão acaba sendo mental. Exatamente como os ditadores que pretendem eliminar um pensamento político querem que seja.


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