Acontece, acontece. Cheguei tarde em casa, liguei a TV enquanto beliscava alguma coisa, puxei o cobertor deixado sobre o sofá porque estava meio frio... Bum, acordei com a TV ligada, depois da uma da manhã. E já que estava ali, agora desperto como os antigos depois do primeiro sono, dei mais uma girada pelos canais.
Um bom documentário sobre Nijinski, um ou outro filme que parecia interessante, uma senhora oferecendo algum produto espetacular, seriados... Acabei num dos meus vícios televisivos, que é assistir programas de igrejas, quanto mais curiosos melhor.
Meu preferido era um que só encontrei num canal pequeno do Sul. Não havia auditório, só a mensagem do provável fundador da igreja, que era a cara do saudoso padrinho. Um dia ele falava sobre aquele pessoal do quinto capítulo do Gênesis, os descendentes de Adão até Noé, que acabaram se conhecendo porque viveram centenas de anos:
- Eles eram homens como nós, que trabalhavam e iam embora no final do dia. E aí Enoch às vezes passava pela casa de Adão e seu tataratataravô estava sentado no alpendre. E eles começavam a conversar. E Adão contava o que havia lhe acontecido: "Hi, rapaz, você não sabe como eu me arrependo da besteira que fiz".
Só faltava a tataratatara Eva aparecer oferecendo uma fatia de torta recém saída do forno. Mas acho que essa igreja se manteve pequena, nesse meu giro da madrugada só encontrei a do Apóstolo Valdemiro, com um pastor que imitava seus trejeitos e modo de falar, e um programa da Igreja Universal.
Era o Fala que eu te escuto, que é apresentado por bispos da casa, mas não se limita a temas religiosos. O assunto em pauta envolvia uma enquete aberta ao público: A PEC do Estouro é boa porque vai ajudar os mais pobres agora ou é ruim porque causará um estrago que será pago por todos a seguir?
Obviamente, a resposta já estava na formulação da pergunta. E os dois apresentadores não economizaram argumentos. Lembraram que o "Bolsa Família ou Auxílio Brasil, como se chame" teria seu valor mantido pelo atual governo, mas com respeito ao teto de gastos que o seu sucessor está querendo derrubar.
Disseram que isso é porque eles já aumentaram seus salários e duplicaram os ministérios, falaram da desconfiança dos investidores e de como ela afeta negativamente a economia, trouxeram a opinião de uma jornalista da área sobre o desastre que está por vir. Em suma, mandaram ver.
No final, a enquete deu 85x15 contra a PEC da Gastança. Mas o importante não foi a posição do público, e sim a da Universal. Teve gente apostando que "os pastores" abraçariam novamente o lulopetismo se este voltasse ao poder. E não é isso que está acontecendo, esse foi só mais um exemplo.
Eu sabia que não aconteceria com pessoas como o Malafaia, mas não tinha a mesma certeza em relação ao Edir. No entanto, os artigos sobre política do seu jornal mantiveram o tom. E se ele quisesse mudar não faria isso de imediato, mas também não abordaria um assunto como a PEC da maneira que o fez.
É um bom sinal, pois o mundo evangélico é eleitoralmente indispensável para a direita real (a que não usa sapatênis e vota contra a extrema esquerda). Que esses programas continuem. E que mais à frente possam trazer depoimentos de pessoas que votaram lulo, mas acabaram acordando e percebendo como foram iludidas:
- Hi, rapaz, você não sabe como eu me arrependo da besteira que fiz.
Imagem: Adão e Eva depois da expulsão do Paraíso. David Teniers (1610-1694), cópia de Paolo Veronese (1528-1588).

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