Escuta-se em nossas ruas, com crescente frequência, um som que julgávamos pertencer ao passado. É o apito do amolador. Não daquele mané que perdeu e foi devidamente admoestado pela autoridade suprema. Quem está voltando é o afiador de facas, alicantinhos de unha e, principalmente, tesouras.
É uma questão de mercado. Apegados às suas antigas tesouras, os integrantes de um ramo do jornalismo perceberam que elas já não cortam como antes, deixando marcas grosseiras onde antes nada aparecia ao seu leitor ou telespectador.
Que saudades eles sentem daquela época. Quem os escutava ou lia seus artigos poderia jurar que estava frente a duas visões de mundo opostas e inconciliáveis. "Voltar à cena do crime", "fanático da Opus Dei", os políticos tinham lado. E as redações de que falamos não ficavam em cima do muro, lutavam contra a censura e a corrupção.
Quem os lia não imaginava que os dois pedaços eram parte de uma só peça que havia sido cortada com fina precisão, que o mal e o bem eram delimitados como lhes parecesse melhor. Tudo era parte de um teatro, de uma estratégia em que, como nas tesouras. a mesma mão manejava os lados que pareciam se opor.
Só que aí apareceu alguém disposto a combater de verdade o mal da censura e da corrupção (inclusive a de costumes). E a solução foi chamar quem enfrentava o antigo mal de mal e parar de cortar, deixando ver que o antigo bem estava unido ao antigo mal e chamando a esse conjunto de bem.
Parece complexo? Imagine então a volta que foi preciso dar para escrever que quem censurava era democrático e quem era censurado autoritário. Para se dizer contra o arbítrio e defender prisões e punições arbitrárias. Para fingir não ver as fraudes. Tudo isso e muito mais, nossa abnegada imprensa teve que fazer.
E, enquanto o fazia, ela deixou de usar a tesoura. Nem um óleo passaram na coitada, que foi perdendo o corte. O que causa problemas agora, quando eles começam a tentar usá-la novamente.
Os artigos já estão por aí. Que o antigo mal não ouse voltar a fazer o mal, ameaçam seus autores, prometendo fazer-lhe ferrenha oposição se tal acontecer. São as primeiras críticas, depois devem vir outras mais fortes, declarações com cenhos mais franzidos.
Mas é como a gente disse, o corte agora é grosseiro, todo picotado. As pessoas olham e não conseguem esquecer que aquilo era até anteontem parte de uma unidade defendida com unhas e dentes pelos que tentam novamente apresentá-la como duas. A tesoura já não funciona como antes.
Por isso o amolador voltou a ter trabalho. Porém o caso das tesouras sem fio será difícil de resolver. Será que ele afia espadas também?

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