Além dos males que todos conhecemos, a atual invasão russa à Ucrânia está gerando um drama que revela a profunda integração cultural entre as duas nações. Nas entrelinhas, percebe-se também como o projeto de poder de Putin está ancorado na religião. É o que diz a BBC em artigo que resumimos e alteramos abaixo.
Guerra na Ucrânia: a rebelião religiosa por trás da invasão russa
Com 78% de seus adultos se identificando como ortodoxos, a Ucrânia tem 12 mil paróquias ligadas à IOU-PM (Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou), subordinada à IOR (Igreja Ortodoxa Russa).
Outras 7 mil paróquias pertencem à independente IOU (Igreja Ortodoxa Ucraniana), que só abandonou sua subordinação à Rússia recentemente, em 2018, após a invasão russa da Criméia.
Isso significa que a Rússia exercia uma influência substancial no âmbito espiritual ucraniano. Mas a agressão liderada por Putin — que destruiu centenas de igrejas com seus ataques aéreos — abalou o poder da IOU-PM.
O ponto decisivo foi a atitude do patriarca de Moscou, Kirill, líder máximo da IOR e antigo aliado de Putin. Kirill, que aparece na foto acima e no passado já chamou o governo de Putin de "milagre de Deus", não condenou as ações militares, abençoou as tropas russas e, até agora, não pediu um cessar-fogo.
De acordo com vários estudiosos, Kirill, como Putin, compartilha uma visão de um Russkiy Mir (Mundo Russo) onde ucranianos e russos são um "mesmo povo" e sua missão é reuni-los para enfrentar as ameaças que vêm do exterior.
"O patriarca russo vê a guerra na Ucrânia como uma espécie de guerra cultural entre uma concepção ocidental de vida e uma concepção oriental", diz Thomas Bremer, professor de teologia ecumênica na Alemanha.
"Kirill forneceu ideias e ideologia a Putin. Acho que, sem a contribuição da Igreja Ortodoxa Russa, a guerra teria sido impossível porque ela a justifica. Putin tem essa autoconfiança também porque a Igreja o encorajou", diz Cyril Horovun, padre ortodoxo ucraniano que ensina eclesiologia na Suécia.
A atitude de Kirill e líderes como ele gerou uma ampla rejeição entre os crentes ucranianos. Até mesmo o metropolita Onófrio de Kiev — líder da IOU-PM — condenou veementemente as ações russas e pediu a Putin para por fim à "guerra fratricida" e a Kirill para ajudar a resolver o conflito. A falta de resposta fez com que várias dioceses na Ucrânia parassem de orar pelo patriarca, o que é um importante ato de desobediência.
Geralmente, na liturgia, o mais alto hierarca é mencionado, se ora por ele. Mas muitos pararam de fazê-lo. Vi vídeos na internet onde os padres dizem: "ele nos decepcionou e não é mais nosso patriarca, não podemos confiar nele". E esse é um passo muito ousado.
É uma rebelião interna, uma fragmentação única da Igreja. Kirill parece ignorar por completo todas as mortes, a destruição. Ele não pronunciou uma única palavra em apoio às vítimas ucranianas.
Esta rebelião desencadeou uma oposição interna sem precedentes a Kirill na própria IOR. Cerca de 300 padres e diáconos russos assinaram recentemente uma carta aberta que pede um "cessar-fogo imediato" e diz: "Pensamos com amargura no abismo que nossos filhos e netos na Rússia e na Ucrânia terão que superar para voltar a ser amigos, respeitar e amar uns aos outros novamente."
Toda a Igreja Russa está um pouco abalada. Embora muitos apoiem a guerra, há uma crescente dissidência em relação às políticas de seu patriarca. E em outros lugares, nas estruturas da Igreja Russa fora da Rússia, algo semelhante também está acontecendo. Nos países bálticos, por exemplo, eles estão tentando se distanciar de Moscou, expressando sua desconfiança do patriarca.
Por que a Ucrânia é tão importante? A Ucrânia não é apenas mais um país para Vladimir Putin ou para a IOR. A visão dominante do nacionalismo russo é que a Ucrânia é uma nação irmã e o coração do Mundo Russo. Em particular, Kiev tem um significado espiritual muito importante para os ortodoxos. Tanto que Kirill já a comparou ao significado de Jerusalém para o cristianismo global.
É isso mesmo. O que Jerusalém significa para o cristianismo, Kiev significa para a ortodoxia russa.
A Ucrânia é uma parte muito importante da metodologia russa. Para eles, o país faz parte do seu mito fundador.
Por conta disso, Kirill justificou a ação russa na Ucrânia como uma forma de salvar aquele país da influência do mundo ocidental e de seus valores deturpados. Em um de seus sermões, o patriarca destacou que uma das razões do conflito é a oposição de seu povo às "paradas gays".
A Igreja de Kirill apresenta a Rússia como defensora dos valores tradicionais e familiares contra o Ocidente supostamente decadente e corrupto que apoia o grupo LGBT e todo tipo de distorção ética, Para eles, o Ocidente é quase como uma encarnação da força do mal. E Putin também tem essa imagem em mente.
O que pode acontecer? Várias dioceses dentro da IOU-PM já expressaram sua intenção de independência da IOR. Alguns querem inclusive convocar um conselho de bispos com o objetivo de tomar uma decisão que caminhe para abandonar sua relação histórica com a instituição liderada por Kirill. Outros pedem para manter a cabeça fria, apontando que é impossível construir uma nova Igreja durante a guerra. Mas está claro que haverá um antes e um depois nas relações entre os ortodoxos russos e ucranianos.
Se os russos ganharem o controle da Ucrânia, o que é possível, eles terão uma igreja na Ucrânia na qual eles não confiam. Haverá bispos que disseram "não confio mais em você" (...) Possivelmente, eles terão que mudar o episcopado e muitos dos bispos. E acredito que muitos padres e fiéis não irão mais à igreja porque não têm mais confiança na ortodoxia russa.

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