Desenhando em casa, eu aprendi a usar o lápis. E aí eu estava lá, copiando a matéria do primeiro ano, quando a estagiária que substituiu a professora descobriu que eu segurava o lápis do jeito errado e parou a aula para me ensinar o certo, narrando tudo para as outras crianças acompanharem. Acabei fazendo o que ela queria. Mas assim que ela virou as costas voltei a usar o lápis do meu jeito. E nunca mais mudei.
A diferença era irrelevante e nunca me atrapalhou em nada. Mesmo assim talvez eu tivesse mudado se a moça me chamasse depois da aula e me convidasse gentilmente a experimentar o "jeito certo". Me expondo ao resto da classe e me intimidando, ela só conseguiu que eu me aferrasse ao meu jeito.
Pensei nisso ao ler, pela enésima vez, um desses artigos em que um esquerdista metido a intelectual discute como eles devem agir para converter quem se deixou seduzir pelo bolsonarismo - ou pela extrema direita ou que nome tenha, esse pessoal que, segundo a esquerda, segura o lápis do jeito errado.
A pretensão de que o jeito deles é o único certo os cega para o fato de que estão falando de dezenas de milhões de pessoas que nada lhes devem e simplesmente veem as coisas de outra forma. Quanto mais eles insistirem em impor seus discutíveis valores como se fossem professores do mundo, mais colherão o resultado contrário.
É evidente que líderes como Bolsonaro têm prazo de validade. Mas tirá-los de circulação não será suficiente para fazer seus eleitores desistirem de seus próprios valores e voltarem a aceitar o teatro em que um PSDB faz o papel de direita. Ao contrário, tentar forçar essa situação pode gerar líderes que, do ângulo da esquerda, serão ainda piores.
Não soube escrever
Não adianta segurar o lápis do jeito certo e escrever mal. Com a inexplicável pressa em publicar a tal carta, Flávio (ou quem a tenha divulgado) deixou um flanco aberto que a imprensa de esquerda não deixará de explorar. Para eles, a parte da ditadura luloalexandrina será esquecida, tudo sempre se resumirá ao fato de que ele se declarou presidente. O que era completamente desnecessário.
Colegas
Fiquei sabendo esses dias que um dos colegas que assistiu a cena do lápis esteve no 8 de janeiro e ainda pagou a viagem de outras pessoas. Desde então vive atormentado pelo caso, envolvido com advogados, passando o que tem para o nome dos filhos, cogitando sair do país clandestinamente se tiver prisão decretada, uma tensão constante. E diziam que no nosso tempo de primário é que tinha ditadura.

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