segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Rogae por nós

Se você não quiser a explicação estritamente espiritual, tem a sociológica e a psicológica, mas o fato é que os blasfemadores não costumam se dar muito bem. Principalmente, como está acontecendo este ano entre nós, quando sua blasfêmia vem coroar um histórico de abusos em outras áreas.

Primeiro foi na Copa. Como disse Paulo Machado de Carvalho aos jogadores da final de 58, o azul das camisetas que ele acabara de comprar nos daria sorte porque era da cor do manto de Nossa Senhora. Pois eles tentaram substituir o azul por vermelho e, quando não conseguiram, o escureceram e o combinaram com uma silhueta demoníaca.

Caímos fora logo, é evidente, mas os culpados se deram mal. Quem foi o poderoso que, nas sombras da CBF, autorizou a Nike a investir naquela barbaridade? Ele mesmo, o beiçudo, que se julgava acima de todos e está vendo sua posição a perigo de lá para cá. A quem ele queria agradar com a camiseta vermelha? Todos sabemos.

E o adorador do vermelho-capeta também foi o protagonista da blasfêmia mais grave, cometida já na campanha eleitoral. Nessa ocasião, além de usar o nome de Nossa Senhora para desfiar sua habitual avalanche de mentiras, o ser das trevas teve o desplante de carregar sua imagem entre o povo, como se fosse um religioso fiel.

O jararaca, como ele mesmo se define, deve ter esquecido que, em sua representação clássica, Nossa Senhora está pisando na cabeça da serpente. Ao segurar sua imagem como um futebolista que levanta a taça da vitória ele se colocou sob seus pés, na mesma posição em que a jararaca original é esmagada.  

Abusou, blasfemou, não pode reclamar.

Rogae

Foi na Reforma Ortográfica de 1911 que os portugueses substituíram as formas verbais terminadas em "ae" por "ai". Mas a nova grafia só foi oficializada no Brasil em 1943, através do Formulário Ortográfico elaborado pela Academia Brasileira de Letras.

Assim você pode encontrar o "rogae por nós" em algum livro antigo, mas eu o conheço desde criança pelos cemitérios. As viagens familiares de final de ano incluíam uma peregrinação pelos túmulos dos antepassados e, enquanto caminhávamos por entre as lápides, eu ia lendo o que estava escrito nelas. 

Ainda existiam vários "rogae por nós". Mas na verdade a minha diversão (se podemos dizer assim) era procurar por quem nasceu e morreu no mesmo dia e mês. Com o tempo acabei criando uma espécie de Yom Kippur particular, na qual eu me interessava por esses casos porque estava destinado a ser um deles e, portanto, se passasse pelo meu aniversário tinha a garantia de ficar por aqui até o próximo.

Este ano passei, foi dias atrás. Nossa Senhora há de me dar a graça de ver a nossa jararaca ter finalmente sua cabeça esmagada.


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