A manchete é ruim para quem pensava em se estabelecer numa futura metrópole lunar. Alguns cientistas fizeram as contas e concluíram que, mesmo que se consiga reciclar 98% da água lá existente, as reservas do precioso líquido acabariam em cerca de 100 anos. Você poderia ir, mas seu neto já teria que voltar.
Lendo a notícia, no entanto, se descobre que a conta foi feita para uma população de um milhão de pessoas. Num cálculo simplificado, cem mil habitantes teriam água para mil anos, dez mil para dez mil; em ambos os casos haveria tempo de sobra para solucionar o problema.
Além disso, nós cansamos de ver essas contas definitivas em relação ao petróleo e toda hora se descobre mais uma fonte dele e novas maneiras de explorá-lo. Parece lógico que só exista água no gelo depositado nos polos lunares, mas a realidade pode ser mais complexa do que agora se supõe.
De um modo ou outro, em termos de abastecimento de água tudo pode se acertar. O problema maior talvez seja definir quantas pessoas cada país poderá enviar para lá. A divisão envolverá apenas os que já têm tecnologia para uma ocupação ou todos terão uma quota, mesmo que não a usem de imediato?
Se for a segunda opção, acho melhor vender logo nossa parte.
Onde não falta água e gelo é na Groenlândia, que, confirmando-se o acordo ontem anunciado, se tornará uma espécie de protetorado norte-americano. É uma grande vitória de Trump, que dá aos EUA o controle definitivo de uma posição estratégica e mais à frente lhes dará também um novo estado.
Num país como a Alemanha, entre militares e funcionários civis, os EUA mantém cerca de 50 mil pessoas que vivem com suas famílias em vilas próprias, mas também estão integradas com a população local.
A Groenlândia tem apenas 56 mil habitantes, um contingente americano com 10 mil pessoas e suas famílias já se aproximaria desse número. Não é difícil prever que os groenlandeses acabarão envolvidos pelo modo de vida americano e utilizarão seu direito à autodeterminação para tornar essa ligação oficial.
É provável que o acordo também assegure uma proteção americana especial à Dinamarca. Com o esvaziamento da OTAN, a difícil preparação dos europeus para um possível conflito com a Rússia se concentra em países populosos como Polônia e Alemanha. Mas o alvo prioritário russo poderia ser a pequena Dinamarca, que controla os dois estreitos que permitem passar do Báltico para o Atlântico.
De novo, quem deixou os dinamarqueses e os demais europeus nesse aperto foi Trump. Talvez se lembrem disso quando a Groenlândia se tornar um estado normal.

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