Neste canto do mundo, nenhuma fidelidade é maior que a dedicada ao time de futebol. O sujeito pode brigar com a família, mudar de nacionalidade, de linha política ou orientação sexual, mas é muito difícil encontrar alguém que torcia para um clube e de repente passou a torcer para outro.
É para aproveitar-se dessa identificação que as empresas pagam para colocar suas marcas nas camisetas das equipes e, hoje em dia, até em seus estádios. Funciona, garantem minhas várias ferramentas da Tramontina, patrocinadora do Inter na época em que as adquiri.
Recentemente, algo semelhante tem acontecido com a política brasileira. Com a polarização do setor, grande parte do eleitorado se comporta como torcedor de futebol e não perdoa a marca que apoia o outro lado, seja diretamente ou através da contratação de um divulgador a ele associado.
É possível até que o lado político seja atualmente mais forte do que o clubístico. Ninguém mais contratou o Felipe Neto para fazer propaganda, mas a Lacta, tentando reverter a situação, não teve receio de perder os clientes corintianos e palmeirenses ao adquirir os naming rights do Morumbis.
Outro caso recente de recusa a um influenciador e produto envolveu a Fernanda Torres e as sandálias Havaianas. A empresa está torcendo para o pessoal mais à direita esquecer do assunto até a tira do atual chinelo estourar, mas garanto que tem muita gente que vai manter o boicote.
A boa notícia para quem está nessa situação é que a Grendene, acaba de doar 2,5 milhões para a campanha do Zucco, do PL, a governador do Rio Grande do Sul. Quando as Havaianas de hoje se desgastarem, poderemos ir ao mercado com nossas sandálias Rider, marca da Grendene, para comprar detergente Ypê.
O Zucco lidera a campanha, mas está sendo seguido de perto pela candidata da esquerda, a pedetista Luciana Brizola, cujo grande mérito político é ser neta do Leonel. O nome da velha raposa, que já era herdeiro adotivo do Getúlio, ainda é uma marca suficientemente forte para atrair eleitores.
Claro que isso também depende da disposição dos sucessores. Apesar da Ivete Vargas ter tirado a sigla (outra marca) PTB do Brizola, a família do Getúlio se manteve relativamente afastada da política. E o mesmo vai acontecer com a marca Lule, que deixará filhos bilionários, mas não terá sucessores no seu ramo.
O que promete ser o oposto disso é o seu principal adversário. Com esposa e quatro filhos (por enquanto) diretamente envolvidos com a vida pública, a marca Bolsonaro tem tudo para ir muito mais longe do que a Brizola ou qualquer outra.
Você pode perseguir e torturar o patriarca como estão fazendo agora, mas isso de certo modo fideliza ainda mais a clientela. Ao contrário do que pensavam as cadelas da censura e do autoritarismo, o futuro deve mostrar que não será tão fácil "derrotar o bolsonarismo".

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