Demitida duas vezes em pouco tempo, Nina Lemos ainda tem que enfrentar a incompreensão de quem não reconhece seus esforços de filha única (por algum motivo a mãe não quis arriscar uma segunda experiência). Tantas sofreu que ela acabou escrevendo o artigo abaixo para desabafar. Sinta o drama.
Mundo injusto
Estou há três meses no Brasil cuidando da minha mãe idosa. Essa é a segunda vez em um ano que isso acontece. Larguei gato, casa, boy, trabalhos e toda a vida que escolhi. Acordo e durmo cuidando. Minha paciente é uma pessoa extremamente difícil e minha vida tem sido um inferno.
Devia ser o bastante para ser horrível, mas é pior. Há anos eu vivo me desculpando e me explicando com passantes na chuva, na rua, no uber, no hospital e na casinha de sapê. Motivo: sou mulher, filha única, minha mãe tem mais de 80 anos e moro na Alemanha. E isso parece ser um crime grave.
“Ela disse que você mora na Alemanha, quem cuida dela no dia-a-dia. Por que você mora lá?”. A pergunta foi feita por uma assistente social em um quarto de hospital. Minha mãe passou por uma cirurgia complexa (deu tudo certo) e eu não tive NENHUMA AJUDA. Passei as cinco horas da cirurgia sozinha, dormi duas noites com ela na UTI, tudo absolutamente sozinha. Aí veio essa pergunta. Passo meus dias explicando tantas vezes que moro fora, mas sou boa filha, que corro o risco de me explicar para vocês por força do hábito aqui.
Voltemos ao quarto, onde a assistente social e a psicóloga inquiriram essa pessoa que não saía do hospital há cinco dias e tinha feito tudo sozinha, sozinha, sozinha. Sozinha de marré de si. Solidão maior eu nunca senti. Eu podia ter dito que morava na Alemanha porque eu era casada com um alemão (o que é verdade), podia ter inventado que tinha filhos, mas eu estava exausta o suficiente para não querer facilitar NADA para elas.
“Se eu fosse homem e falasse que trabalhava na Volkswagen você me faria essa pergunta?”, disse, diante de olhos confusos. “Não, não diriam. Vocês só estão falando isso porque eu sou mulher”. Tentaram me interromper, mas eu estava decidida: “eu podia falar para vocês que eu moro na Alemanha porque eu sou casada com um alemão, coisa que até sou, mas não é por isso que eu moro lá. Eu moro lá porque eu QUERO.” Uma hora elas devem ter cansado do meu discurso, me ofereceram água e me deixaram sozinha com minha raiva, meu desespero e minha tristeza.
O mesmo aconteceu há dois anos em Copacabana na sala de uma geriatra que tenta bancar a influencer good vibes no Instagram. “Mas você não pensa em voltar da Alemanha? Por que você está lá? Eu não penso em voltar e moro lá PORQUE ESSE É O MEU DESEJO”, respondi, chamando Freud e quase gritando.
Hoje foi a vez do motorista do Uber: “Você não pode ir embora essa semana e deixá-la assim. Você tem que ficar mais dois meses.” HAHAHA. A audácia.
O mundo segue dizendo para nós, mulheres, o que podemos, o que devemos, quando podemos ir, quando temos que ficar, o que somos permitidas a fazer e nos pedindo explicações. “Vão para os diabos sem mim. Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!”, gritava Fernando Pessoa e eu roubo o seu grito.
Nada disso aconteceria se eu fosse um filho único engenheiro da Volkswagen com três filhos. Tenho certeza. Eu seria “o filhão incrível”, mesmo se visitasse minha mãe uma vez por ano para passar o Natal. Esse mundo é muito injusto. Que ódio.
O pior é que, com exceção do uber, nossa heroína foi cobrada por mulheres com curso superior. É o machismo introjetado. Como diz Nina: "O antifeminismo não muda de acordo com a roupa que a pessoa está usando. Antifeminista pode estar fantasiada de empoderada, de trad wife... é inimiga da liberdade das mulheres do mesmo jeito."

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