segunda-feira, 29 de junho de 2026

O efeito será contrário

Com o estrondoso fracasso da proibição imposta há meio ano e que outros países pensam em copiar, o governo da Austrália decidiu partir para cima das empresas de tecnologia, culpando-as por não tomarem medidas que impeçam o acesso de menores de 16 anos às redes sociais.

As multas máximas serão dobradas e os poderes do órgão regulador da internet (eSafety Commissioner) serão aumentados, dando mais um passo para a concretização do que eles e outros governos censores realmente querem, que é o controle de todos os usuários desses serviços.

É claro que eles juram o contrário, mas como saber se aquele rapaz ou moça que diz ter 17 anos não tem na verdade 15? E como as empresas poderão confirmar quem está do outro lado da tela se não exigirem que o usuário coloque sua cara na câmera durante todo o tempo de cada acesso?

Ainda que façam isso, como eles poderão impedir que os jovens passem a acessar os serviços como estrangeiros? Tentarão tornar, ao estilo Xandão, o VPN ilegal? Vão monitorar o conteúdo das conversas para dizer que quem marcou um encontro com amigos no shopping de Sydney não pode estar em Amsterdã? 

Não duvido que a turma do eSafety Commissioner pense nessas coisas. Mas até a Janja sabe que um controle desse tipo só pode ser implementado por um regime ao estilo chinês. Enquanto eles tiverem que pelo menos fingir que respeitam a liberdade individual, seus esforços estarão destinados ao fracasso. 

O lado positivo de tudo isso é que os garotos estão aprendendo na carne que não se pode dar poder demais ao governo sobre o cidadão, o que acabará se refletindo em eleições futuras. E isso afetará praticamente todos, pois nenhum adolescente quer ser o bobo que respeita uma proibição que os demais aprenderam a driblar. 

Por falar no assunto

A "ultradireita" australiana é o One Nation, que cresce batendo na imigração desenfreada, na economia e na crise habitacional do país. Numa trajetória que recorda a do UK Reform, o partido apenas conquistou sua primeira cadeira na câmara baixa do Parlamento, mas tem liderado diversas pesquisas sobre intenção de voto futuro. 

Em resposta, a esquerda do Partido Trabalhista (o PT de lá), atualmente no poder, tem tentado retomar o controle do eleitorado atendendo a algumas demandas da nova oposição. Mas quem realmente sofre com ela é a oposição "conservadora" (o PSDB de lá), que vê seu antigo eleitorado migrar em peso para o One Nation.

Não encontrei nenhum artigo sobre o efeito da censura das redes sobre as próximas eleições australianas, mas acho que basta ao One Nation jogar parado neste caso, pois é meio óbvio que os jovens eleitores chegarão às urnas lembrando como o sistema (o antigo, bipartidário) tentou retirar a sua liberdade.


Imagem - A censura das redes é só mais um autoritarismo. O sistema australiano também pegou pesado na época da covid, chegando a deter pessoas que se recusavam a tomar a "vacina". Mesmo assim, protestos contra essa obrigatoriedade, como o da foto acima, chegarão a reunir milhares de pessoas. 

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