Tempos atrás, estimamos que o Brasil tinha uns quatro milhões de criminosos contumazes e cada um deveria ter, em média, um familiar eleitor que apoiava sua "escolha profissional". Com isso, teríamos oito milhões de eleitores que, conforme a amostra dos presídios, votam quase integralmente no colega depois descondenado.
Pois quem fez uma conta por outro caminho e acabou chegando ao mesmo número de bandidos (quatro milhões) foi Jorge Lordello, o delegado que virou palestrante, apresentador de TV e figurinha comum no Youtube.
Ele se baseou no percentual da população que Bukele teve que prender para colocar ordem em El Salvador. Alguns foram deixados de lado, mas 1,5% dos salvadorenhos estão em cana, a maioria em locais com cursos profissionalizantes e chances de recuperação, 0,3% na barra pesada do Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo).
Parece pouco, mas 1,5% da nossa população dá mais de 3 milhões de pessoas. E 0,3% dá quase 700 mil, número próximo do total de nossas prisões dominadas por facções, que não recuperam quem merece uma nova chance nem retiram de circulação os irrecuperáveis.
Aqui seria difícil construir prisões para tanta gente, mas tudo é proporcional, lá também foi. Não tenho ideia dos custos, mas aposto que não seriam maiores que os desperdiçados com novos estádios na Copa ou os hospitais de campanha não utilizados (alguns nem montados) na paranoia da covid.
E Bukele acertou politicamente em cheio ao dar prioridade máxima a essa questão. El Salvador continua pobre e cheio de problemas, mas a população o apoia quase integralmente porque se sente tão aliviada como quem se curou de uma doença que o incomodava e pensa que o resto se vê depois.
No Brasil não seria diferente, mas aqui ainda não existe a consciência (que agora o salvadorenho tem) de que o primeiro passo é não eleger políticos apoiados pelas gangs organizadas. Saber que quase 90% dos presidiários vota num partido deveria ser suficiente para o eleitor descartá-lo, mas isso não é o que se vê por aqui.
Talvez muitos acabem abrindo os olhos se os EUA declararem nossas facções como terroristas e o candidato em quem elas mandam votar se sentir obrigado a combater a medida para não desagradar essa importante fatia do seu eleitorado. Já estará muito bom se esse for o resultado das reuniões que devem acontecer hoje em Washington.
Finalizando, uma lembrança para quem acha que esse negócio de chamar as coisas por seu nome é besteira. Para prender todos os seus faccionados, Bukele os classificou como terroristas e, com base nisso, declarou estado de exceção e colocou 20 mil soldados nas ruas (na proporção, aqui seriam mais de 600 mil).

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