Mas os democratas parecem aparvalhados. Onze anos depois de o empresário nova-iorquino ter descido a escada rolante para anunciar a primeira candidatura, a oposição ainda não conseguiu se adaptar ao mundo pós-verdade e apresentar uma frente articulada para lidar com o país aprisionado numa casa do Big Brother. Gritar da plateia no meio do discurso não é tática de oposição.
Citado esta semana quando comentamos o discurso que todo presidente americano deve fazer anualmente, o texto acima foi escrito pela melhor amiga branca de Pocahontas, Lúcia Guimarães. E nós voltamos a ele para responder à pergunta ali embutida: Por que, "onze anos depois", eles não sabem como anular o Trump?
A resposta é simples: Não é porque não querem, como diria um conhecido nosso; é porque não conseguem. Não é por falta de pessoas inteligentes, de dinheiro, de acesso à internet ou do apoio de forças poderosas. Eles têm tudo isso de sobra e adorariam parar o movimento capitaneado pelo Laranjão, mas não conseguem.
E não conseguem porque este não é o "mundo pós-verdade"; aquele em que tudo dependia da versão que Tia Lúcia e seus coleguinhas contariam é que era o "pré-verdade". Movimentos como o de Trump trazem à tona questões reais e tornam impossível escamoteá-las como se fazia na era pré-internet.
A certa altura do discurso, Trump afirmou que o governo deve cuidar mais dos cidadãos americanos que de imigrantes ilegais e pediu que todos que concordam com isso se levantassem. Seria natural que todos o fizessem, mas os democratas tanto apoiam à imigração ilegal que permaneceram sentados.
Tempos atrás, a cena poderia ficar apenas na memória de quem viu a transmissão ao vivo. Os noticiários de TV e os jornais talvez nem a mostrassem e certamente não a repetiriam. Em breve seria como se ela nunca tivesse existido. Mas agora ela será postada e repostada pela própria população, sem necessidade de intermediação.
Isso não é pós-verdade, não exige interpretações sofisticadas ou truques de edição. E confere automaticamente veracidade ao discurso de que os democratas estão tentando encher o país de ilegais para permitir que eles votem sem documentação em quem lhes der mais benefícios estatais.
Essa "brasilização" é o plano da esquerda americana e europeia, mas ela não consegue defendê-lo abertamente. Gostaria, mas não consegue. E esse é apenas um exemplo, há inúmeros pontos em que esse pessoal não resiste à simples exposição dos fatos sem os filtros que dominavam a era pré-verdade.
É por isso que "onze anos depois" eles não sabem como lidar com Trump. Ou não entendem a resiliência do voto em Bolsonaro, ou seus equivalentes em outros países. Eles só sabem que tudo isso está ligado à disseminação da internet e tentam censurá-la. Mas, felizmente, até aqui não conseguem.

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