quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Vítimas e heróis

Como ela serviu de desculpa para uma agressão verbal gratuita e covarde, acabamos não comentando a afirmação de que os filhos de Bolsonaro estariam errados ao expor imagens do pai fragilizado, atormentado por problemas de saúde crônicos e pelas desumanas condições de uma prisão inteiramente política.

Ser mostrado como vítima indefesa, era a tese do imbecil que escreveu o raivoso tuíte original, tornava Jair Bolsonaro uma figura ridícula e desprezível, acabando com a sua boa imagem junto aos setores da população que ainda poderiam apoiá-lo. Mas será que é realmente assim?

Não é o que pensa o português João Pereira Coutinho, que no mesmo dia, por coincidência, publicou na Folha um artigo em que termina dizendo: "Eu, com a devida vênia aos especialistas, prefiro respirar o ar do tempo e concluir: para os homens do século 21, é melhor ser vítima que herói."

Você pode ler o artigo completo de Coutinho sem os bloqueios da Folha aqui, mas sua conclusão se baseia em obras recentes, na tendência a premiar vítimas de atentados com medalhas ou memoriais e até na recusa, revelada em pesquisas, da maioria dos europeus a defender militarmente seu país na hipótese de uma invasão. 

Nada disso, claro, surgiu ontem. Como outros povos do passado, os romanos desprezavam abertamente quem se mostrava derrotado/vítima, mas isso foi alterado desde a disseminação do cristianismo. O que acontece é que a tendência a tratar vítima como herói acentuou-se de uns tempos para cá.

Meu primeiro pitaco é que essa mudança tem muito a ver com as pautas que a esquerda impôs recentemente à sociedade. Vejo aí um desenvolvimento natural da questão das minorias, do negro que merece ser ressarcido porque seu antepassado foi escravizado, da mulher que foi oprimida durante milênios etc.

Minha outra observação é que essa tendência é particularmente forte no Brasil. Outros países tem ícones nacionais que acabaram como vítimas, o escocês Wallace é um exemplo. Mas o nosso grande herói nacional é Tiradentes, que nem chegou a lutar, o coitadismo sempre grassou entre nós. 

E as regras do DNA são infalíveis, o pai dos coitadinhos é coitadinho também. Lembre de Lule, aquele operário saído do povo, de cabeça baixa, dizendo na TV que foi enganado no Mensalão. Lembre da espectadora humilde segurando as lágrimas ao ver a angústia encenada pelo malandro. 

No caso atual, quantas pessoas você conhece deixaram de apoiar Bolsonaro ao vê-lo em trajes íntimos e passando mal? Nenhuma, quem se incomoda com isso são os que o já o detestavam; talvez porque lhes jogue na cara o quanto são cúmplices dos sofrimentos impostos a alguém que, embora digam o contrário, sabem ser inocente.

Digo mais: não é certo, mas é possível que a exposição de seu martírio acabe por aumentar o apoio a Bolsonaro entre o público mais simples, que hoje, apesar de tudo, ainda é praticamente um curral do corrupto descondenado. 

Além disso, se havia cálculo político no falso arrependimento do sindicalista espertalhão, aqui não se pode garantir que há. Podemos estar apenas frente a filhos que veem seu pai sendo deliberadamente torturado e querem denunciar o que acontece antes que seja tarde demais.


Nenhum comentário:

Postar um comentário