Me cadastrei uma vez na The Economist e agora eles todo dia me mandam um email que frequentemente inclui um aperitivo dos principais temas da revista. O de hoje se refere à capa acima, é assinado por uma tal Zanny Minton Beddoes, e pergunta: "Por que Trump é impopular, mas aparentemente imparável?" Vamos lá.
Nas últimas semanas, fiz várias viagens pela Europa e pela América Latina. Em cada lugar, um tópico de conversa inevitavelmente surgiu: os Estados Unidos estão caminhando para o autoritarismo? Os europeus assistiram com incredulidade ao presidente Donald Trump enviar tropas para cidades americanas, intimidar oponentes e atacar órgãos supostamente independentes, como o Federal Reserve. "Onde está a oposição?", perguntam eles. Na Colômbia e no Brasil, muitos que conheci comentaram que suas instituições independentes e seus freios constitucionais pareciam mais robustos do que os dos Estados Unidos.
Huashuashuash, logo Colômbia e Brasil, com presidentes do Foro de São Paulo!? E "freios constitucionais mais robustos"? Com quem você andou falando, Zanny? Você anda mal de interlocutor, precisa sair um pouco da bolha. Da próxima vez passa aqui que a gente toma um café e te explica melhor. Ou você já entendeu e acha mesmo que perseguir adversários com processos farsescos é só o que resta para vocês?
Há muito tempo sou otimista quanto à resiliência da democracia americana. Ela provou isso ao longo de quase 250 anos, e sempre acreditei que as instituições e os freios e contrapesos se mostrarão robustos agora. Ainda acredito que sim, mas Trump está representando um desafio peculiar. Ele é impopular: seu índice de aprovação líquida é de -14%, de acordo com nosso avaliador de Trump [Trump tracker]. Isso é quase o mesmo que o de Joe Biden após seu desempenho desastroso no debate do ano passado. No entanto, ele é notavelmente capaz de conseguir o que quer. Por quê?
Com base nas "pesquisas" daqui eu me arriscaria a dizer que é porque o "avaliador de Trump" de vocês não vale muita coisa. Já quanto à democracia americana não há chance de você errar, pois Trump não a está atacando, mas revitalizando após décadas de aparelhamento de esquerda. Você e seus amigos não gostam, mas isso é outra história.
A matéria de capa desta semana aborda essa questão. Parte da explicação é que Trump se move muito mais rápido do que as forças que o restringem. Até agora, o presidente tem obedecido às decisões judiciais, mas assim que uma via legal se fecha, ele tenta outra. Ele não encontra resistência dos republicanos, que insistem que ele está sempre certo, mesmo quando se contradiz. Instituições independentes — empresas, universidades, escritórios de advocacia — podem se opor à sua violação de normas e intimidação, mas têm dificuldade em se coordenar. E por trás de tudo isso se esconde a dura realidade da vingança e intimidação de Trump, e a noção de que é responsabilidade de outra pessoa fazer a coisa certa.
Por que os republicanos deveriam se opor ao seu presidente? E ele obedece às decisões judiciais porque não faz nada ilegal, as únicas leis que tem afrontado são as que vocês inventaram e querem impor pelo costume. A "dura realidade" é que vocês tentaram destruí-lo com truques baixos como o que utilizam em países mais ao sul, mas ele resistiu e está lhes dando o troco que vocês merecem.
Politicamente, portanto, a principal tarefa da oposição recai sobre o Partido Democrata. Ele é, para dizer o mínimo, confuso, como explica o briefing desta semana. Ele se move para a esquerda? Ele ocupa o centro? Os democratas têm mais confiança do eleitorado em relação à saúde. Mas em muitas questões com as quais os americanos se debruçam, incluindo criminalidade e imigração, os eleitores preferem os republicanos. Dez anos depois do início da era Trump, os democratas ainda o subestimam. Os índices de aprovação de Trump podem ser baixos, mas ele ainda é mais popular que os democratas.
Ah, então os democratas continuam sendo vistos como piores do que ele. É isso que conta, querida. Mas a gente não entende porque você se angustiam se tem tantas coisas boas a oferecer. Foquem mais nos direitos trans, na imigração de bandidos, na liberação de furtos e outras políticas típicas. Ou treinem mais juízes como os de países "com freios constitucionais mais robustos".
Os políticos também se encontram em uma situação difícil na Europa, onde a sombra da extrema direita paira sobre a economia. De fato, até 2027, a extrema direita poderá estar no poder em países que representam quase metade do PIB europeu. Alguns partidos tradicionais já estão se esquivando de reformas difíceis e imitando políticas dos extremos — um estilo de governo que corre o risco de acelerar a vitória da extrema direita que eles buscam evitar. Mudanças ousadas são necessárias — e a coragem para implementá-las — se quiserem evitar a desistência da iniciativa. Coragem política é escassa em ambos os lados do Atlântico.
A esquerda globalista está em situação difícil, você deveria dizer. Os políticos que encaram o sistema montado por essa gente estão mesmo indo bem. E não falta coragem para vocês, faltam argumentos. Ou, na falta destes, condições de censurar e prender adversários como os cucarachas que lhe parecem exemplares. Se quiser eu posso lhe indicar um consultor nessa área. O cara é bom, só tem que ser pago em dinheiro vivo porque não pode ter conta em banco. Por culpa do Trump também.

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