quinta-feira, 7 de julho de 2022

Calem os hereges!

Vivemos numa situação similar. Um sistema perde poder. Estados, universidades, escolas e institutos de pesquisa científica; empresas de jornalismo profissional e seus canais de divulgação. Inicialmente, viram a internet com otimismo ingênuo. Agora se voltam contra ela como a uma terrível ameaça.

De Joel Pinheiro da Fonseca, o texto acima faz parte de um artigo que cumpre aquela pequena cota de realidade da Foice. Joel conta ter participado de um seminário sobre liberdade de expressão. E a situação à qual ele compara a atual é a que gerou veículos como a própria Foice:

(...) a invenção da imprensa mecânica por Gutenberg em meados do século 15 (...) Antes dela, fazer uma cópia de um livro era caro e demorado. Poucas instituições tinham acesso a copistas (...) basicamente a Igreja Católica e os maiores Estados nacionais. Eles eram "o sistema". Inicialmente, a igreja viu a inovação com bons olhos. (...) Logo, contudo, as autoridades eclesiásticas se deram conta de que tinham perdido o poder sobre a informação. E daí o sentimento mudou. "Heresias" começaram a pipocar por todos os cantos, e não é à toa que a mais bem-sucedida foi justamente aquela que soube colocar o livro - objeto antes caro e agora popularizado - em seu centro: o protestantismo.

Na verdade, Gutenberg é responsável pela impressão mecânica com tipos móveis, que, ao que se sabe, só havia sido tentada e abandonada na China, muito antes dele. Mas a comparação é boa e, em geral, a situação é pior para o sistema de hoje.

Entre outras diferenças, poucos sabiam escrever e só alguns poucos entre estes publicavam livros no século 15 e nos subsequentes. Hoje todos escrevem e, em princípio, descontando-se questões como as tentativas de controle que também existiam no passado, basta fazê-lo na internet para ser publicado.

A Igreja também exigia reverência antes, não mudou de atitude ao fazê-lo depois de Gutenberg. Já o sistema que inclui universidades e empresas de jornalismo sempre se pretendeu libertário e iconoclasta, expondo-se ao ridículo ao reclamar, como agora o faz, das heresias das redes e da falta de respeito com que o tratam.

Entre direita e esquerda quem mais perde é esta, que viu décadas de crescente controle do mesmo sistema perderem seu valor. Inclusive (ou principalmente) quando se trata da sua vertente politicamente correta, que agora é abertamente contestada pela maioria que antes não podia se manifestar.

Isso não impede que esse aspecto do sistema ainda avance em certos pontos, estão aí as "mulheres trans" e a importância que a antiga mídia readquiriu durante parte de sua querida pandemia. Mas suas tentativas de controlar a sociedade como antes parecem fadadas a um fracasso tão estrondoso como o do farsesco "Use Amarelo".

Resta a choradeira dos que apresentam formulações idiotas que são desmontadas por um peteleco (na internet), mas se julgam "intelectuais" porque o sistema assim declarou. Pô, logo na vez deles! Não deixa de ser irônico que essa turma veja "ressentimento" em todos os lados e nunca cogite que este possa estar em seus óculos.

E esses conflitos também tendem a se expressar em termos estritamente eleitorais. Em muitos países isso já acontece. Vem daí grande parte do horror sem amparo na realidade que alguns sentem de políticos como Trump e Bolsonaro. Ele são hereges, demônios a exorcisar.


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