terça-feira, 3 de novembro de 2026

Desenhos perigosos

Ainda não é uma proibição, mas pode ser um passinho nessa direção. A reclassificação dos desenhos bíblicos que a Record leva ao ar nas manhãs de domingo - que passaram de "livre" para "desaconselhável para menores de 12 anos" - não obriga a emissora a transmiti-los em outro horário nem impede que as crianças os assistam.

Mas se o efeito é nulo, por que mudar? E por que essa decisão, que deveria ser técnica e precedida de análises e discussões, só foi divulgada três dias depois da eleição? Isso foi uma simples coincidência ou uma primeira meia-volta num parafuso que eles tentarão apertar ao longo deste mandato?

Ao mesmo tempo, aparece um youtuber petista dizendo que eles não venceram o Flávio, mas uma ideia de país que tem que ser combatida. E o seu primeiro exemplo dessa ideia são os evangélicos, a começar pelos que usam bandeiras de Israel. "Ou eles tiram essas bandeiras ou nós vamos lá tocar fogo nelas", ameaça o rapaz.

Você pode dizer que se trata apenas de um militante raivoso num caso e de burocratas procurando o que fazer no outro, mas o fato é que suas decisões e opiniões estão em linha com um regime que já tentou e continuará tentando calar a população e criminalizar toda a oposição.

Nesse sentido, muito os incomoda a posição da grande maioria dos evangélicos e demais religiosos conservadores, cujo direito à livre expressão se mescla ao da liberdade de culto. Eles ainda não se sentem confortáveis para atacar frontalmente este último, mas tentarão limitá-lo o quanto puderem.

Você amanhã?

Quem acha que isso nunca poderá evoluir para algo mais sério deve dar uma olhada na Nicarágua, dominada, como o Brasil, por integrantes do Foro de São Paulo. Até 2018 o ditador Daniel Ortega alternava momentos de afastamento e aproximação com a Igreja Católica, amplamente dominante por lá.

Naquele ano, sacerdotes e bispos abrigaram manifestantes feridos pela repressão policial e tentaram intermediar conversas de paz. O autocrata interpretou essas atitudes como "terroristas" e "golpistas" (até os termos são os mesmos!), passando a tratar o clero como inimigo político.

Desde então, mais de uma centena de padres e bispos foram presos ou se exilaram, procissões nas ruas são proibidas, ordens religiosas foram expulsas do país ou tiveram seus bens confiscados, universidades católicas foram fechadas, emissoras de TV e rádio controladas pela Igreja tiveram que sair do ar. Para culminar, agentes do governo assistem as missas e podem dar voz de prisão imediata ao sacerdote que falar sobre direitos humanos ou problemas sociais.

Parece que não podemos chegar a isso, mas lá também parecia até pouco tempo atrás.


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