Uma bolha dentro de outra bolha dentro de outra bolha etc. Assim vivemos nós em todos os sentidos, muitas vezes completamente alheios ao que se passa nas bolhas dos demais. Como aconteceu agora, quando a grande bolha do Ocidente mal notou um fato que esteve à vista de todos, mas só agitou a do Mundo Árabe.
Culpa do futebol, esse grande conector de bolhas, e de um dos maiores agentes dessa integração, Cristiano Ronaldo, craque português que vive há três anos e meio na Arábia Saudita, mas continua a ser o líder e cobrador oficial de pênaltis da seleção de seu país natal.
Todos viram ele respirando fundo e se concentrando para bater o pênalti contra a Croácia, mas só alguns notaram que ele murmurou duas vezes alguma coisa que, pelo movimento dos lábios, telespectadores árabes garantem ser "bismillah", tradicional invocação islâmica que significa "em nome de Deus".
Não haveria nessa atitude nada de excepcional, é até comum que alguém vivendo em outro país adote expressões usadas com frequência pelos locais. E bismillah é uma boa candidata para isso porque transmite de forma compacta ideias que necessitariam de várias palavras em línguas ocidentais.
De qualquer maneira, o fato virou motivo de orgulho no mundo árabe, uma prova de que o já simpático CR7 não está lá meio a contragosto, apenas para ganhar mais alguns bilhões, mas se deixou influenciar pela cultura que o recebeu, integrando-se a ponto de parcialmente adotá-la.
Quando a notícia chegou em Portugal, no entanto, alguns não gostaram de saber que seu ídolo teria abandonando a língua-mãe num momento tão decisivo e apresentaram versões alternativas para seu murmúrio. Numa ele teria dito "bamoslá" ("vamos lá"), em outra estaria se autoincentivando com um "baismarcar" ("vais marcar").
Cristiano nada disse e creio que nenhum jornalista se anima a lhe pedir esclarecimentos sobre um tema secundário num momento de concentração total na Copa. Se um dia falar sobre isso deve confirmar que usou o termo árabe, pois não vai querer decepcionar quem ficou feliz com seu ato e a maioria dos portugueses não se importa.
Em último caso, como falou duas vezes, pode dizer que foi de bismillah numa e de bamoslá na outra. Quem é bom de verdade chuta bem com as duas pernas. Mas uma de cada vez para não cair sentado no chão.
Tempo de ajuste
O Brasil nunca venceu a Noruega, perdeu duas e empatou outras duas. O que é bom porque, na medida em que a norma é nós termos saldo positivo com todo mundo, está na hora dessa aberração estatística começar a se acertar. Bamoslá e bismillah, o que interessa é avançar.

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