sábado, 21 de março de 2026

Sem viadagem, ó pá

Anos atrás, alastrou-se pela Europa a ideia de que os principais partidos do país deviam se unir para evitar que a "ultradireita" alcançasse o poder. De uns tempos para cá, no entanto, os partidos da "direita tradicional" perceberam que esses acordos com a esquerda acabariam por se voltar eleitoralmente contra eles e passaram a se aproximar aos poucos dos que chamavam de "radicais".

É o que acaba de acontecer em Portugal, onde há três partidos que realmente contam: PS, de centro-esquerda, com 58 deputados; PSD, de centro-direita, com 89 deputados; Chega, de direita ("ultradireita"), com 60 deputados. Os demais partidos estão em geral à esquerda e têm um total de 25 deputados.

Unido ao PS, o PSD pode bloquear quem quiser. Mas ele acaba de deixá-lo e se aliar ao Chega para alterar a lei de identidade de gênero de 2018. Não há incoerência alguma nisso porque a maioria do PSD foi contra a lei naquela ocasião, mas o fato do partido se unir ao Chega (que nem existia em 2018!) indica uma mudança positiva que deve se acentuar.

Uniões similares, envolvendo  temas específicos ou eleições locais, já acontecem até nos dois gigantes da União Europeia, França e Alemanha. A tentativa de marginalizar os partidos que seguem a recente onda de direita está fazendo água por todos os lados. E após a primeira brecha é uma questão de tempo para toda a barreira ruir.

A alteração

A lei agora modificada é uma barbaridade woke através da qual, mediante a simples anuência de um pai e a apresentação de um laudo emitido por médico ou psicólogo que ateste sua "capacidade de decisão e vontade informada", qualquer criança pode se declarar de outro sexo, alterar documentos e passar por tratamentos hormonais que incluem os pavorosos bloqueadores hormonais de puberdade.

Pelo projeto principal, de autoria do PSD, as transições não estão proibidas, mas voltam a exigir uma análise muito mais acurada e a opinião de uma junta médica especializada. E a isso se somam os outros dois projetos aprovados no pacote.

O apresentado pelo Chega prevê a proibição da inclusão da ideologia de gênero nos conteúdos programáticos dos estabelecimentos de ensino para menores de 18 anos, determinando que "a educação nesse campo é reservada exclusivamente aos pais ou tutores legais".

O terceiro projeto-lei é de autoria de um dos dois deputados do pequeno CDS-PP, que votou com os dois maiores. Ele visa "proteger a integridade das crianças" proibindo os bloqueadores de puberdade e/ou o uso de terapia hormonal no tratamento de disforia de gênero em menores de 18 anos.

Discursos se repetem

Madalena Cordeiro, do Chega: "Não é cuidado, não é medicina, não é ciência. Um homem é um homem e uma mulher é uma mulher. Diferenças entre ambos são claras e evidentes. Ciência de nono ano. Agora, basta uma consulta para que em cinco minutos uma criança seja diagnosticada com disforia de gênero."

Isabel Moreira, do PS: "A democracia está a ser destruída. A cartilha é conhecida e é de extrema direita (...) três partidos desta casa afirmam que pessoas trans não deviam ter autonomia para dizer de sua identidade."

Filipa Pinto, do Livre: "Que mal fizeram as pessoas trans e intersexo para que lhes seja negada a sua existência?"

A mesma conversa no mundo todo, tudo igual.


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