quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A culpa é minha e eu...

A imagem gerada por IA é uma homenagem a Tia Lúcia, que chegou mais ou menos nessa época à cidade e, na Folha de hoje, se mostra toda animada com os processos que estão por ser julgados nos EUA contra as redes sociais. Para a veterana, eles podem ser o início de algo como as campanhas contra o cigarro de décadas atrás.

De certa forma ela tem razão. A base das reclamações é a mesma: pessoas que de livre e espontânea vontade usaram um produto durante muito tempo querem culpá-lo pelos males que esse uso lhes teria causado. Se não existisse cachaça eu não teria me tornado um alcoólatra, é a lógica do troço.

Você pode achar absurdo, mas isso é só porque você é uma pessoa normal. Lembremos da musa berlinense, que tempos atrás confessou ter passado o dia seguindo a aborrecida rotina de uma médica residente que decidiu trabalhar com a câmera ligada. Nina se sentia mal enquanto fazia isso, mas não conseguia parar.

Há situações trágicas como a de duas famílias que culpam o Instagram pelo suicídio de seus filhos. Mas o principal processo é movido por uma Nina americana de 20 anos, que responsabiliza o sistema de algoritmos usado nas plataformas pela dependência que teria afetado sua saúde mental.

Este caso ganhou "a adesão de 1.600 reclamantes, incluindo centenas de famílias e mais de 250 distritos municipais de Educação" (adivinhe de que partido essas prefeituras devem ser). O pessoal acusa várias redes de terem "reprogramado a forma como seus filhos pensam, sentem e se comportam".

Não deixa de ser verdade, mas o que não "reprograma"? Os amigos, a escola, a TV, a propaganda, o jornalismo... tudo influencia/reprograma todo mundo. As redes podem até parecer mais fortes nesse sentido, mas apenas oferecem mais opções de acordo com aquilo que o usuário demonstra preferir. 

Mostrar mais do que a pessoa gosta é todo o segredo do terrível algoritmo. Os reclamantes que o tratam como uma espécie de feitiçaria eletrônica estão no mesmo nível dos que acreditam que o pessoal ia votar no Taxxad e mudou para Bolsonaro ao receber um dos zaps hipnóticos inventados pela autodenominada "putinha do PT".

Creio que gente como Tia Lúcia sabe bem disso, mas não pode confessar que odeia as redes sociais porque elas desvalorizaram a cachaça jornalística que tanto lucro e poder lhes trazia pouco tempo atrás. "Eles não podem fazer a cabeça do pessoal", grita a macróbia; "só nós", pensa em segredo.

Quanto à justiça, tudo pode acontecer. No entanto, podemos usar a comparação inicial para lembrar que o cigarro nunca foi proibido, só a sua propaganda. Se o mesmo critério for utilizado, as redes não têm muito com que se preocupar. Fuma quem quer, mantém conta no Face quem quer. 

Passar disso levaria a coisa para o terreno do ataque à liberdade de expressão, tão valorizada nos EUA. E a parte interessante de uma tentativa dessas é que os odiados bilionários de Tia Lúcia precisariam se afastar politicamente da esquerda que defende sua censura, aproximando-se mais da direita. Como já tem acontecido.

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