sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Grama que muda de cor

"Sete anos depois, imprensa descobre que a grama é verde", seria uma manchete adequada para descrever a súbita mudança dos integrantes do autodenominado "Consórcio", agora escandalizados com as relações entre ministros do STF e banqueiros enrolados que destinam centenas de milhões para escritórios de seus familiares.

Mas a grama da mídia só ficou verde agora, de dias para cá. Ela continua sem cor quando se trata da malandragem para tirar um condenado por corrupção da cadeia, criar inquéritos secretos com base em regimentos internos, perseguir um lado do espectro político e prender pessoas inofensivas por uma inexistente tentativa violenta.

Um dos aspectos mais interessantes de tudo isso é a sua previsibilidade. Todos sabiam que o Consórcio fecharia os olhos para as irregularidades que o STF cometesse contra a direita, mas mudaria de atitude logo depois, tentando se mostrar novamente como defensor da democracia e dos direitos individuais.

A quebra do banco Master e o valor do contrato que ele mantinha com a família do principal violador dos direitos humanos vieram a calhar, mas a operação "grama verde" seria executada da mesma forma. A ordem é esquecer a cumplicidade com as canalhices do passado recente e denunciar as descobertas agora.

Antigamente, talvez funcionasse; houve uma época em que o Consórcio podia condenar um tema ou uma pessoa ao esquecimento total ou parcial. Hoje é diferente, este texto é só uma gotinha do oceano que lembrará do que eles fizeram nos verões passados; aqueles em que a grama era até mais verde do que agora.

Gente que não se adapta

Nenhum é inocente, mas tem todo jornalista do Consórcio reage a essa situação do mesmo modo. Me parece, por exemplo, que os mais jovens entram num barco que está navegando e tendem a tratar tudo como natural. Do lado dos veteranos, muitos percebem a furada, mas só estão preocupados em esticar suas carreiras enquanto der.  

E tem aquele grupo até divertido, dos que se mostram indignados com a perda da antiga influência. Entre eles, é claro, a veterana inter veteranos, nossa tia Lúcia, que chegou a trabalhar como babá da Pocahontas enquanto não conseguia licença para atuar como jornalista em Nova York.

Em artigo na Folha de ontem, ela solta os cachorros contra os "barões das big techs" que, com a ajuda do pérfido Donald Trump, estariam tentando dar voz a todo mundo para acabar com o jornalismo profissional (que é como ela chama a sua turma de militantes de redação).

Embora seja óbvio que as deteste, seu ódio não se volta contra as redes em si, mas contra a substituição dos "moderadores de conteúdo" pelo modelo de "notas da comunidade", criado pelo Elon Musk, em que os próprios internautas fiscalizam e corrigem as informações incorretas de uma postagem.

Pois é, dona Lúcia, controlar grupinhos de moderadores de cabelos azuis ainda dava; controlar milhares de pessoas fica muito difícil. Chato esse negócio de democratizar e descentralizar a informação, né? Vocês não podem mais nem mentir em paz.


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